domingo, 28 de outubro de 2012

A nômade




A coisa mais preciosa que você busca já está presente no seu interior. 






                Antes do avião decolar, ela recebera um último telefonema de seu pai.

             - Por que, minha filha, por quê? – perguntava ele. Porque é tão difícil ser igual aos outros? Por que você não deixa este vôo e volta para casa e se alimenta. Você é só pele e osso, minha filha!

              - Não me importo em ser só pele e osso, Pai. Estou determinada a encontrar a mim mesma - respondeu, inconformada.

                - Você está sendo radical, minha filha. Sua mãe está perturbada com essa sua história de viajar para um lugar desconhecido. Porque você não pensa melhor? 

            Por alguns instantes, ela viu-se envolvida por aqueles apelos. Meu pai talvez tenha razão – começou a pensar. Talvez seja melhor voltar para casa e sentir-me contente com o que sou.

             Era difícil para ela confiar realmente em sua própria intuição. Velhos pensamentos a faziam sentir-se pequena. Sentimentos de incerteza e dúvida influenciavam-na. De fato, quando criança, ela aprendeu que esses sentimentos eram corretos e verdadeiros: "não aja de forma estranha; não pense além das normas; adapte-se; seja um boa cidadã, seja responsável..." Todos aqueles valores, supostamente elevados, mantinham-na pequena e exigiam que ela escondesse sua própria originalidade. Uma filha "normal" e bem adaptada às expectativas do mundo externo, quase sempre acaba esquecendo de si mesma. Com muita facilidade perde o contato com a energia original de sua alma.


          Ela, como todo ser humano, havia adquirido opiniões e crenças sobre si mesma durante sua criação; absorveu ideias e imagens dos seus pais, familiares, colegas, escola, etc... Por isso, sua mente agora lhe dizia que o bom comportamento é o que está de acordo com os padrões familiares; e que quem pertence ao clã tem de viver conforme esses padrões. Assim, ela começou a desempenhar determinados papéis sem questioná-los, e logo desenvolveu aquilo que conhecemos como "personalidade", um conjunto de hábitos, comportamentos e pensamentos. 


             No entanto, nesta etapa da sua caminhada, alguma outra coisa despertou dentro dela: uma lembrança; um sussurro; um conhecimento de que ela é mais do que é determinado pelo mundo exterior a ela. E foi neste instante que, sincronicamente, antes que tomasse qualquer decisão de retornar ao ninho familiar, uma voz cavernosa, semelhante a de um animal selvagem, soou como um alarme em seu íntimo, levando-a a refletir que, para encontrar a Si própria, teria que continuar a seguir o curso para o seu interior e ouvir os sussurros da sua alma. E isto significava pagar o preço necessário para atravessar uma difícil aduana: o rompimento com o desejo de seus parentes, que estavam indo além de seus limites, invadindo-a com uma carga psicológica que não lhe pertencia.

            
              É claro que este corte também seria vivido com dor por ela, para quem decepcionar os pais vem junto ao temor de perder o amor deles. No entanto, não era justo que, além de carregar o peso das suas próprias dificuldades, ela também tivesse de suportar a angústia de falhar em relação à expectativa que seus pais depositavam nela. Por isto, a jovem foi adiante e disse:

           - Pai, confie em mim, por favor. Deixe-me ser quem eu sou apenas uma vez na vida. Deixe-me cometer meus erros, deixe-me tropeçar, deixe-me ser quem eu sou e mantenha sua fé mim. É só isso que lhe peço! 

              Seu pai então respirou fundo. Parou completamente por alguns instantes e viu, repentinamente, lembranças do passado  assaltarem-lhe a memória, embargando sua voz num pranto que, a todo custo, evitou por demonstrar. Mudando substancialmente o tom da conversa, disse-lhe: 

             - Minha filha, se eu pudesse voltar no tempo, também gostaria de ter explorado o novo e vivido o desconhecido. Mas acabei por permanecer preso ao caminho que "outros" traçaram para minha vida e, por causa disso, permane
ço vivendo, em tranquilo desespero, uma existência que sinto não ser a minha. Portanto, se desistir agora e fizer o que eu fiz, talvez não haja mais laços com a força que a impulsiona a aprender; e provavelmente não haverá mais desafios e nenhum outro fracasso. 

              Fazendo pequena pausa, procurou respirar novamente por alguns momentos e logo em seguida rematou a conversa falando:

              - Quando eu tinha a sua idade, também ouvi a voz do meu coração, o grito da minha alma, mas ao invés de segui-la, comecei a pensar que me tornaria um marginal, que as pessoas se afastariam de mim, que não me amariam ou me aceitariam mais. E agora que você está passando por isso, talvez tenha essa mesma dúvida no seu coração, mas peço que, por favor, siga a voz da sua alma. Ela é como uma borboleta emergindo do seu casulo, procurando se libertar dessas forças externas e desejando se mudar do caminho batido, daquele com a qual estamos todos tão acostumados. Siga, vá em frente, voe para o desconhecido, para além dos seus limites.

 Fim

Autor: Tiago Bueno

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