domingo, 28 de outubro de 2012

Sinal verde para a autoexpressão

          

               Hoje participei do grupo "Atelier da Escrita" no Hospital São Pedro. Para mim está sendo rico e curioso conhecer estas "aberturas" criadas dentro da instituição, para auxiliar o processo de "autoexpressão" dos pacientes. Tenho percebido que estas iniciativas geralmente entram em conflito com o caráter institucional do hospital, e tem sobrevivido graças a uma força heroica das pessoas que os mantém. No entanto, é nestas brechas que os pacientes conseguem "falar" e revelar suas angústias, sonhos, desejos e temores. Desde que entrei no universo da Comunicação Não-Violenta, minha atenção é redobrada sempre que alguém começa a se expressar. Procuro ouvir os sentimentos e as necessidades mais profundas que estão sendo ditas. Desenvolvi essa habilidade também por uma questão de sobrevivência. Sei exatamente o que é viver um medo e uma solidão profunda, por exemplo. Compartilho a humanidade em comum com todas as pessoas. E foi isso o que aconteceu no Atelier de Escrita hoje à tarde. Um paciente que está "desinstitucionalizado" escreveu um poema. Muito acabrunhado, começou a lê-lo. Ao longo do poema revelava-se a profunda confusão e o medo do futuro que vivia seu universo íntimo. Havia cerca de 10 pessoas na sala escutando-o, silenciosamente. Ao final, todos aplaudiram sua leitura. Foi então que voltei-me pra ele e perguntei: 

             - Não ficou explícito nas suas palavras escritas no poema, mas levou-me a entender que você está se sentindo confuso e que também gostaria de ter maior segurança com relação ao seu futuro, seria isso? 

             - Sim, ele respondeu - num tom de alívio. Eu me sinto muito confuso e tenho medo do que possa acontecer no futuro. Não sei o irei fazer da minha vida.

             Aquele momento era terapêutico, pois coisas "não expressadas" estavam emergindo à tona e sendo acolhidas dentro de um ambiente de não-julgamento. Ninguém estava ali para salvá-lo, mas simplesmente "diziamos" a ele que ele era bem-vindo e aceito da forma como é.

             Acredito que todos possamos estar atentos quando uma pessoa resolve assumir o risco de tentar compartilhar algo que lhe é muito pessoal. Se o que ela compartilha não é recebido ou entendido, aquela experiência pode ser esvaziadora e solitária. O fato de ninguém a entender, leva-a à perda da esperança. Uma vez perdida a esperança, seu mundo interno, que se torna cada vez mais bizarro, passa a ser o único lugar onde pode viver. Por isso, acredito profundamente na necessidade de desenvolvermos um "ouvido" criativo, ativo, sensível, empático e imparcial. Para mim, é algo que se afigura imensamente importante em qualquer relação. Sinto que cresço quando o ofereço, e tenho a certeza de que cresço e me sinto aliviado e valorizado quando recebo este tipo de escuta.

Autor: Tiago Bueno
tbcsol@gmail.com
fone e whats: 51-98177893

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