segunda-feira, 25 de abril de 2011

Meditando na estrada




"É fundamental aprendermos a nos desligar de todos os problemas e situações do dia-a-dia e entrarmos no espaço de silêncio interior que existe dentro de cada um de nós."

    
            Eu guardava a certeza de que algo estava mudando dentro de mim. A experiência de enfrentar e sentir meu próprio medo pareceu ter-me dado o sabor de conquistar um estado de maior presença interior, como se uma parte de si mesmo houvesse sido reintegrada. Este júbilo que agora eu desfrutava traduzia-se na forma de perceber e escutar ensinamentos que até então estavam ocultos, como que guardados no grande e misterioso silêncio das coisas.

          Retomamos a estrada de terra, chão batido e pedras, em meio às colinas e altas montanhas, que caracterizavam a região. Encontrava-me em paz. Ela, ao contrário, parecia querer aprofundar outros conhecimentos. Dizia:

         - É fundamental aprendermos a nos desligar de todos os problemas e situações do dia-a-dia e entrarmos no espaço de silêncio interior que existe dentro de cada um de nós.

            Aquela fala chamou a minha atenção. Vendo a oportunidade de ampliar o entendimento em relação ao que estava sendo dito, arrisquei:

                     - E como podemos fazer isto?

             - Há várias formas. Não existe uma regra fixa. O que vale realmente é a motivação e a intenção. O exercício da meditação, com um pouco de perseverança, possibilitará darmos um passo para trás, um passo para dentro, um passo nas profundezas, e despertar nossa consciência para partes desconhecidas de nós mesmos. Partes estas que estão menos condicionadas por nossa educação e por nossa sociedade, e que por isso mesmo podem restabelecer nossa sensibilidade e “sentido de ligação” com as forças criativas manifestadas na natureza.

         Afundei-me no banco do carona. Pensativo, comecei a contemplar a imensidão da paisagem que culminava com o início da noite e término do dia. Um pintor renascentista teria boa inspiração diante de tal quadro natural que agora se desnudava em frente a nossos olhos. A ideia de Deus agora parecia envolver-me o pensamento, arrancando-me notas de respeito e gratidão, que eu, entretanto, não chegava a emitir. Enquanto isso, ela prosseguia em suas reflexões:

      - A civilização puramente científica atordoa a alma do homem desatento. Em face do surto de inteligência moderna, grandes massas de seres humanos continuam a explorar o lado escuro da inconsciência. O progresso tecnológico, em boa medida, parece afastar o homem de si mesmo, principalmente daquela parte que necessita de todo o nosso amor e amparo, a criança interior - finalizou ela. 

       Eu não me senti a vontade para continuar aquela conversa. Virei minha face novamente em direção ao horizonte. Minha vontade naquele momento era experimentar mais profundamente o significado do silêncio. No entanto, fui surpreendido pela solidão imponente do plenilúnio. Ela começou a infundir-me quase terror pela melancolia de sua majestosa e indizível beleza. A lua cheia voltou a exibir seu brilho e magnificência, contrastando com o fundo azul escuro do anoitecer. Ao longe, via nuvens semelhantes a plumas de algodão produzirem encantador espetáculo, cujo preço é impossível catalogar nas convenções humanas, diante de tal expressão artística criada pela Soberana Inteligência do Universo. 

        Ao mesmo tempo, no outro extremo do horizonte, um céu vermelho alaranjado despedia-se de nós, num verdadeiro show de cores e brilho. Nesse momento, vi meus pensamentos e emoções caírem, lentamente, quais folhas mortas no chão. E eu já não sabia dizer se se passara um minuto ou uma hora, pois era como se o tempo estacionasse e toda a criação deixasse de respirar.

           O carro prosseguia seu curso em meio ao silêncio natural que os impelia à introspecção. Quem dentre nós poderia dizer o que se passava naquele instante? Apenas seguiamos o curso da estrada, embebidos em tal experiência.

          Parecia que tínhamos encontrado um espaço de silêncio e quietude dentro de nós mesmos, onde havia a nítida sensação de escutarmos notas harmoniosas de uma doce melodia, sem que, todavia, nenhum som fosse emitido. Este parecia ser o som do divino, capaz de ser captado pela experiência do silêncio profundo.

            Repentinamente, porém, um gavião corta o ar e decide acompanhar o carro, trazendo nossa atenção de volta à rota. Voou, ainda, alguns metros em companhia do carro e depois buscou outro rumo. Sim, pensava eu, aquela viagem não era mais uma metáfora da existência, aventurosa e aberta a todas as possibilidades, mas o início da construção de uma vida dedicada ao caminho interior, que trazia naturalmente sua re-ligação à terra, ao ar, à água e ao sol. Elementos sagrados da natureza e servidores fiéis dos destinos humanos.

     Eu, que carregava nas sandálias da lembrança a poeira das dores do mundo, via-me agora inspirado a continuar no processo de dar o passo em direção a um novo nível de consciência. Um nível cuja base é a segurança interna e a auto-confiança, e através do qual muitas novas criações seriam possíveis. 

Autor: Tiago Bueno


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