segunda-feira, 25 de abril de 2011

O que podemos aprender com nossa sombra?

Filme: Cisne Negro



        Uma questão importante de minha vida precisava ser vista de frente. Eu nutria uma atração por um relacionamento especial de amor, onde buscava no outro a satisfação de meus propósitos de segurança. Porém, isto apenas servia para acobertar uma dor que existia dentro de mim. O relacionamento especial de amor sempre é um pobre substituto para aquilo que realmente nos faz íntegros, Deus. Nossa tarefa não é buscar o amor, mas simplesmente buscar achar todas as barreiras que construímos dentro de nós mesmos contra o amor. 

       Toda ilusão é uma ilusão de medo, não importa a forma que tome. Onde buscamos o amor fora de nós, podemos ter a certeza de que existe ódio dentro de nós e que temos medo desse ódio. Por isto, era necessário encarar e reconhecer, por todos os ângulos, a parte que me cabe nesta loucura que nos leva buscar o amor do lado de fora, e não dentro.  E foi numa destas minhas manifestações de atração que voltei a atenção para dentro e decidi percorrer o caminho oculto daquele sentimento. Quando nos encontramos sob o domínio do ego, sempre experimentamos um estado de carência, uma necessidade de algo mais, e eu queria ver as origens daquilo.

           Queria compreender as raízes daquela atração, que não era simplesmente fisiológica. E isto significa que não existe um só sentimento que não tenha sua importância no processo de crescimento pessoal. Se dissesse a mim mesmo, por exemplo: "Não posso sentir esta atração", simplesmente estaria desprezando a oportunidade de auto-investigação, de saber qual é ou quais são as mensagens profundas da minha vida mental.

      Os impulsos da alma quando não são atendidos ou validados, com o tempo, transformam-se em tristeza, angústia, desânimo, mau-humor, etc. Por isso eu sentia a necessidade, urgente, de me libertar de qualquer padrão e estereótipo de conduta, de modo a aproximar-me o melhor possível de meus sentimentos. Eu deveria ouvi-los com empatia, a fim de que se sentissem legitimados. Só com a atitude de aceitá-los sem reprimir ou me envergonhar deles seria possível estabelecer o primeiro passo para um diálogo educativo com meu mundo íntimo. Isto possibilita a rica aventura do auto-descobrimento. Portanto, fechei os olhos e vislumbrei minha criança interior na tela de minha mente. Imaginei-a com todas as cores bem vivas. Frente a frente com ela, perguntei:

          - Ricardo, você se sentiu feliz na companhia da fulana (me referindo à pessoa com quem eu conversava).

          - Sim - respondeu ele. Eu me senti muito feliz na companhia dela.

            Eu refletia agora que escutar os sentimentos não significa que iremos adotá-los prontamente, mas aceitá-los em nossa intimidade e, sobretudo, criar uma relação amigável com eles.

         - Então a companhia dela o fez se sentir feliz, é isto? - continuei indagando.

          - Sim, é isso mesmo - voltou ele a responder.

          Minha estratégia era ajudar minha "criança interior" a encontrar palavras para identificar o que ela estava sentindo.

         - Se você se sentiu feliz com algo fora de você, significa também que há uma tristeza dentro de você. É verdade isso? - continuei a questionar.

          - É verdade - respondeu ele.

          Aquela resposta surpreendeu-me, pois naquele momento eu não estava me sentindo triste. Busquei, então, ir mais fundo. Queria descobrir a causa do desejo e torná-la transparente aos meus olhos. Tornei a indagar:

          - Eu gostaria de sentir essa tristeza a que você se refere. Você poderia fazer-me sentir a sua tristeza? - disse eu, procurando estabelecer maior empatia.

           De uma hora para outra, o vi se virar e pedir que eu o seguisse. Assim o fiz. Entramos por uma espécie de túnel onde eu podia ver tudo de forma bem clara. Os arredores eram brancos. Tudo parecia muito real. Nos dirigimos até uma porta. Chegando nela, ele abriu, olhou para mim e disse:

        - Entre!

          De súbito, vi-me tomado pela dúvida e temor. Não conseguia ver nada lá dentro, apenas uma escuridão. Era uma espécie de buraco negro, um lugar coberto por sombras. Eu sentia-me angustiado por ter que entrar lá e esse era o aspecto mais nauseante e desesperador para mim: ao buscar a raiz da "atração" que alimentava meus sentimentos, eu me encontrava com o vazio. E o vazio é o supremo horror. Nada mais terrível do que ser confrontado com o vazio de sua existência. No entanto, era preciso fazê-lo. Talvez minha formação educacional tenha me dado o infeliz costume de dar mais valor à alegria do que a estados emocionais sombrios, de tal modo que aprendi a fazer pouco caso das emoções negativas. Agora, no entanto, via-me impelido a um novo aprendizado: conhecer o que a escuridão havia para ensinar. Por isso, ao contrário do que faria em outros tempos, procurei encarar o desconhecido como o anúncio do enriquecimento de minha própria personalidade, que multifacetava-se com o surgimento de novos aspectos, diante de meus olhos incrédulos.
       
       Entrei lentamente. Logo aos primeiros passos, sem nada enxergar, começamos a ouvir alguns gritos de desespero e dor. Devido à penumbra, tornava-se difícil identificar qualquer coisa. Automaticamente falei:

            - Quem está gritando? De onde vem estes lamentos?

            - Vá adiante - disse meu guia. Siga para o local de onde vem a voz.

            - Sozinho? - perguntei.

            - Sozinho - respondeu ele.

            Eu não podia fugir. Por muito tempo procurei soluções fora de mim; busquei poder e reconhecimento no mundo exterior, mas isto nunca me satisfez realmente. Agora era preciso voltar-me para o próprio vazio interior, para o meu próprio medo.

            - Não tema! - continuou meu "guia".

            Neste instante, ele acendeu uma espécie de tocha de luz e disse:

             - Vá segurando esta tocha de luz, em pé, no meio dessa nuvem de escuridão à nossa frente - apontando a direção a ser seguida.

             Andei alguns passos em meio ao escuro com aquela tocha acesa. Procurava o ponto de onde vinham aqueles lamentos, dentro daquela nuvem escura. Comecei aos poucos a ouvir vozes gritando. Sabia que elas pertenciam a mim, e, por isso, não podia vê-las como inimigas; eram partes de minha consciência que se encontravam perdidas, assustadas, solitárias e desoladas. Foi então que o painel de dor apresentou-se aos meus olhos. Vi uma criança chorando, sentada, próxima a uma ponte. Sua mãe havia sido morta e atirada precipício abaixo. Aquela dor arrebatou-me violentamente de tal forma que pude sentir tudo o que aquela criança sentia. Um desespero tomou conta de mim. Eu queria ajudá-la, mas não conseguia. Lágrimas pesadas abriram com força os portões alquebrados do meu coração. Não fosse pela tocha de luz que segurava entre as mãos, teria caído ali mesmo. Percebia que dela emanavam forças que eu desconhecia, mas que mantinham-me em pé. Voltei-me então para meu "guia" e perguntei:

              - Como posso ajudá-la?

              Sua resposta desconcertou-me:

              - Você já está ajudando, quando decidiu cuidar da sua dor - disse ele.

               Eu pensava em conversar com aquela criança, dizer que estava ali para ajudá-la ou algo semelhante, mas não era possível. Não demorou muito e outro grito ecoou na escuridão, assombrando-me por inteiro:

              - Socorro... socorro, me ajudem. Socorro... socorro, tirem-me daqui, por favor, eu suplico - gritava um homem.

               Aqueles gritos pareciam cortar-me de fora a fora. A frágil estrutura psíquica de minha alma parecia um prédio prestes a desmoronar, ante àquela "escavação profunda". Voltei o olhar para o meu "guia" e, num gesto rápido com a cabeça, apontou-me outra direção. Caminhei alguns passos, procurando a região de onde aquela voz surgia. Dali a pouco se desenhou na minha tela mental a figura de um homem sendo torturado. Eu, sem poder fazer ou dizer coisa alguma, apenas senti a tristeza e estado de miséria em que se encontrava o moribundo. Voltei com o coração aflito, aos saltos, e perguntei novamente:

                - Como posso ajudá-lo?

               A resposta foi a mesma:

              - Você já está ajudando, quando decidiu cuidar da sua dor e ter a coragem de olhá-la diretamente.

               Desse ponto em diante retornei à realidade exterior, perplexo. Fiquei por alguns minutos em estado de completo silêncio, pasmado, sem mexer uma só pálpebra. Acabara de tomar conhecimento de uma realidade dentro de minha alma que eu nunca imaginava pudesse existir. Quer dizer então que o desejo e a atração nutrida por mulheres tinha relação direta com o apaziguamento de sentimentos de ódio e separação de outras vidas? Estas memórias estariam "vivas" dentro de mim? Meu corpo estava em liberdade, mas minha alma mantinha-se presa, em dor e sofrimento, oriundos de traumas vividos em vidas passadas?

             Agora, entendia um pouco melhor porque determinadas linhas espirituais adotam o celibato. A finalidade é que consigamos olhar para a causa, para a raiz dos nossos sentimentos, de modo a curá-los. Do contrário, o ego sempre oferecerá uma saída, uma solução para aliviar esta dor profunda. Sua estratégia é voltar nossa atenção para fora e nos alimentar com energias externas.

               Nosso inconsciente é vasto, abrangente e muito rico. O ego, por sua vez, é capaz de registrar todas as necessidades que surgem dele. Porém ele responde a elas sem enfrentar a escuridão e o medo interior. Ele distorce nosso desejo original por amor e unidade, dando-nos o paliativo de preenchê-lo através das energias adquiridas por meio dos relacionamentos. No entanto, isto não resolve nossa dor nem aplaca nossas necessidades, apenas nos torna dependentes e escravos do mundo externo.

               Muito frequentemente eu sentia que necessitava da presença de outra pessoa em minha vida. Eu supunha que a solidão estava associada à falta de contato com outras mulheres e que a solução se encontrava numa relação amorosa. Mas nesta suposição escondia-se uma grande armadilha em potencial. A armadilha é que eu estava colocando a causa da minha dor do lado de fora de mim mesmo.  Porém o propósito espiritual do amor entre um homem e uma mulher não é o de curar as feridas um do outro. A verdadeira beleza de um relacionamento amoroso está no encontro entre dois seres completamente independentes que compartilham suas próprias riquezas um com o outro. Portanto, ele jamais pode servir impropriamente para curar uma ferida interior que, de fato, não tem nada a ver com a outra pessoa.




Continua

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