segunda-feira, 25 de abril de 2011

Construindo uma realidade mais satisfatória

                 
"Por que o choro pode durar a noite inteira, 
mas a alegria chega de manhã"
  Evangelho Essênio da Paz

                    Havia alguns meses que um amigo me falava do grande amor da sua vida: seu filho. O entusiasmo dele era nítido, dizendo-me da realização que sentia por ser um pai. Marquei então uma visita à sua casa para conhecer o pequeno. O fato é que, contrariando nossas expectativas, no bendito dia, o pimpolho estava com o humor estragado, pegando-nos de surpresa. Seu choro traduzia uma tristeza e dor que emergia daquele coração ainda inocente, levando-me a observar atentamente o que ocorria.

      Enquanto a criança chorava, percebia seu pai dizendo-lhe que não havia motivos para estar daquele jeito. Oferecia-lhe também brinquedos e comidas com o intuito de trazê-lo de volta à alegria. No entanto, não o vi em nenhum momento aceitar ou confrontar o fato de que seu menino poderia estar triste, com medo ou depressivo. Afinal de contas, ele também era um ser humano – pensava eu. O pequeno, obviamente, não sabia nomear o que acontecia em seu mundo íntimo. Apenas recebia, inconscientemente, a informação dada por seu pai de que seus sentimentos não eram bem-vindos. Aprendia, assim, desde cedo a isolar o que se passava dentro dele. E isto é um fator importante para arruinar a auto-estima de qualquer ser humano. Algo que, por sinal, tornou-se um fenômeno cultural crônico: a invalidação dos sentimentos.

      Quando a vida interior dessas crianças não é refletida de volta para elas, através de pais ou pessoas compreensíveis, que dão nomes aos seus sentimentos e ouvem-nas com o coração aberto, elas podem se fechar em si mesmas e agir de um modo que parece irracional e impossível de se lidar. O que acontece então? A criança poderá se tornar num adulto que, ao sentir tristeza ou raiva, imediatamente emitirá uma opinião a respeito dela: “isto não é permitido, isto é errado.” Então, sua raiva e tristeza se transformam no seu lado sombra porque, literalmente, ela não pode vir à luz – ela não deve ser vista! O que acontece com os sentimentos, quando são reprimidos deste jeito? Eles não desaparecem. Vão para trás de você para afetá-lo de outros modos; pode, por exemplo, fazer com que você se torne assustado, ansioso, estando sempre tenso e na defensiva.

       É importante refletirmos sobre este tema, visto que existe uma semelhança notável entre a forma como lidamos com as crianças e a forma com que lidamos com nossas emoções. Neste sentido, gosto de lembrar que há uma "criança interior" vivendo dentro de cada um de nós. Como tratamos ela? Agimos como um pai “simplista” que nega o que ela sente, dizendo-lhe, por exemplo, que ela está errada por se sentir triste ou deprimida? Será que ela deveria ser diferente para agradar a imagem de um ser humano feliz, realizado e bem-sucedido que idealizamos? 

           Pergunto-me quanto tempo dedicamos para estender a mão a nós mesmos, a fim de retirar estes sentimentos que vivem abafados na escuridão, por terem sidos invalidados ao longo do tempo. E isso não pode ser feito sem que se assuma responsabilidade total pelos aspectos negativos. 

      Ao ter a mente aberta para encontrar o caminho interior que lhe permita ser totalmente honesto consigo, sem que se perca a fé e a coragem ao enxergar o pior dentro de si, você será capaz de encarar a vida como ela é, sem medo, por que você já não tem medo de si mesmo. E uma vez que se desista do esforço para fingir e se esconder, a tarefa de autodescobrimento passa a ser um processo orgânico e natural. E você faz isto quando reconhece e envolve sua dor com compaixão e compreensão. Assim, consegue irradiar a luz da sua consciência em áreas que costumavam ser a fonte de emoções e pensamentos negativos.  

                    É claro que muito eu já desejei cortar estas partes doloridas e indesejadas de mim mesmo e seguir em frente. Mas descobri que o medo dos próprios sentimentos faz com que você os isole, e dessa forma isole a si mesmo da vida.  O sentimento em si nunca é insuportável, mas a sua atitude em relação a ele pode torná-lo assim. Portanto, não é possível criarmos uma realidade mais amorosa a partir do ódio por nós mesmos. Somente utilizando as energias da compreensão e da aceitação, que são os verdadeiros blocos da construção de uma realidade nova e mais satisfatória, conseguiremos acolher nossas vidas com todos os seus altos e baixos. Olhando-se com uma atitude de aceitação, você não verá uma personalidade dependente, depressiva ou fracassada. Verá apenas a dor interna que precisa ser atendida e cuidada da forma mais gentil e bondosa possível. E este é um passo importante para vivermos bem. Lembre-se que sob os escombros escuros de nossa dor, está a memória de Deus, esperando para ser descoberta e sentida.

Autor: Tiago Bueno




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3 comentários:

  1. Muito bacana tua colocação e de fato faz muito sentido. Parabéns, pela análise.

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  2. Que ótimo, Tiago! Olhar para dentro de nós mesmos, pequenos aprendizes de nós mesmos, que desde a luz , olhamos nossas sombras e paramos de negar. E assim começamos a integrar luz em sombras, num ser integral e íntegro.

    GRATIDÃO POR COMPARTILHAR!!!

    Beijos e luz,

    Jazmin Luz Obelar

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  3. Adorei Tiago, esta tarefa de olhar para dentro de nós e não abafar os sentimentos mais tristes é difícil mas não é impossível. Parabéns mais uma vez!!!!

    Um fraterno abraço!

    Michelle Santana.

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