segunda-feira, 25 de abril de 2011

A natureza viva


            

                Ricardo corria ao lado do bezerro por entre as árvores da mata procurando não atrasar as duas corujas. Chegou um momento, porém, em que não aguentou mais e teve que parar para descansar. Encostou-se numa rocha e começou a respirar fundo. As corujas perceberam o que havia acontecido e fizeram meia volta, vindo em sua direção.


             Enquanto respirava, olhou mais atentamente a flora daquele local. Algo peculiar chamou-lhe a atenção: o solo era de natureza quartzítica e arenítica, mas o entorno era formado por cordões oscilantes de usneas, dando um tom fantasmagórico à paisagem. Ele se espantou diante daquelas plantas que ora se diluiam e desapareciam na bruma; ora apareciam em toda a sua plenitude, quando a luz do luar realçava os diversos planos onde as florações se sucediam.

             Naquele instante, Lena e Gluer aproximaram-se dele. Gluer muito sensitiva perguntou: 


             - Você parece assustado. O que houve?


             - A natureza desta região dá medo - respondeu ele.

             As duas corujas se olharam e Lena disse-lhe:

             - Foi doloroso para você dizer adeus e viajar por estas novas estradas, não foi?


             - Por que você está perguntando isso? - indagou Ricardo.

             - Por que o medo que sentimos não é de algo externo, mas uma projeção de alguma parte dentro de nós que está perdida na escuridão. É sempre a nossa mente que julga o que os olhos contemplam. É a mente que interpreta as mensagens dos olhos e lhes dá "significado". E esse significado não existe absolutamente no mundo lá fora, ele está dentro de você. É você quem dá as respostas para todas as coisas que percebe, porque é a mente que determina a percepção das coisas - respondeu Lena.

             Ricardo ficou mudo e pensativo por alguns instantes. Neste instante, Gluer mais experiente, aproximou-se e disse:

              - Talvez este não seja o momento adequado para usar de esclarecimento e interpretação, Lena. Ricardo irá sentir-se mais confiante em seguir sua auto-exploração se você refletir o que ele está sentindo. Em outras palavras, quero dizer que você é aceito aqui e que pode ficar à vontade se quiser falar ou não sobre o que está acontecendo em sua intimidade, Ricardo.

             Ricardo pareceu entender o que se passava e decidiu falar a respeito de si:


             - Sim, está sendo difícil e muito pesado para mim fazer este caminho. Eu realmente quero abrir um novo horizonte nas minhas formas de pensar e sentir. Mas parece que estou atravessando um vale interno de autodúvida e solidão. Às vezes me culpo por ter deixado tudo para trás, mas eu tinha que me manter fiel à sensação de que alguma coisa não estava certa, que não fazia mais sentido para mim ficar lá. Alguma coisa estava faltando.

             As duas corujas voltaram a se olhar. Ricardo buscava Atalaya com o intuito de ser capaz de viver e criar sua realidade a partir de um novo nível de consciência. No entanto, ele não fazia idéia de que, para realmente compreender este novo nível de consciência, teria que viajar até o âmago e origens dos bloqueios e desequilíbrios que ele experimentava em sua vida. Por isso, a interpretação e esclarecimento que Lena havia dado vinham fora de hora. Ricardo teria que ser "amaciado" um pouco mais, a fim de ganhar confiança para uma maior exploração de si. Gluer então puxou o assunto:

             - Esta sensação persistente de que algo não está certo, recorda as intenções e objetivos originais de nossas almas. Somos como o passarinho que acaba de empenar-se e tenta o primeiro vôo, suas asas não podem sustentá-lo, e ele cai repetidas vezes ao chão. Mas torna a tentar e, um belo dia, voa muito alto, deixando a terra e o ninho para trás. 

              Ricardo sentiu-se mais seguro e resolveu se abrir, falando mais um pouco:

              - Eu dificilmente me sinto bem recebido, aonde quer que eu vá. Junto à minha família ou amigos, sempre estou introvertido, porque não me sinto seguro para falar sobre o que realmente quero oferecer ao mundo. Me sinto como se quase não houvesse lugar para que tal pessoa existisse. Tão pouco vejo perspectivas nos estudos ou em alguma carreira profissional. 

               - Foi bom você ter escapado dos buracos escuros e abarrotados da cidade - continuou Gluer. Está se dando uma oportunidade de encontrar o caminho, mesmo que tenha que passar pela escuridão. Disso nós não podemos lhe isentar, mas queremos dizer que você não estará sozinho.

              Um silêncio pairou entre os quatro. O bezerro apenas ouvia tudo o que acontecia. 

                     
              As Aráras e as sementes

            As duas corujas e o bezerro seguiram acompanhando-o, lado a lado. Enquanto Ricardo caminhava, dobrou o pescoço para a esquerda e viu um casal de aráras, com seu vistoso colorido, atravessar a paisagem.

             - Elas irão pousar nas folhas do buriti, a maior das palmeiras, para ouvir o Grande Silêncio das 4 horas. O buriti acolhe calorosamente muitas aves. Sua altura pode alcançar 50 metros e seus imensos cachos suportam milhares de bagas couraçadas de escamas e de colorido cúpreo. Todas as aves que irão pousar no buriti carregam consigo sementes germinadas em seu papo, pois partirão para longas viagens e precisam estar bem nutridas - disse Lena.





           
            - Como assim? - indagou Ricardo. Elas carregam sementes germinadas no papo? Porque?

           - As aves germinam as sementes no papo e a moela as vai digerindo aos poucos. Dessa forma, com um bocadinho de sementes no papo, elas atravessam oceanos, batendo as asas com uma força fantástica por dias, meses, sem parar para comer.

         - E de onde sai toda essa força? - voltou a questionar Ricardo.

         Lena, Gluer e o bezerro se olharam por alguns segundos. Gluer então explicou:

                     - Nossa Mãe Terrena, Ricardo, possui muitos segredos e conhecê-los nos faz pensar sempre de modo anticonvencional. A cada instante, Ela cria formas novas dentro da mata. O que agora existe nunca existiu antes e o que já existiu não retorna. Aqui tudo é sempre novo e sempre velho. Nossa Mãe Terrena constrói sempre, mas também destrói sempre. Por isto, neste ambiente, você é convidado a aprender "o que é tecido junto" com a diversidade da Mãe Terrena. As sementes, por exemplo, que a Lena se referiu, para vocês são apenas fontes de nutrição, mas para nós servem principalmente como fontes de informação. 

            - Como assim, fonte de informação? - perguntou Ricardo.


             - Em linhas gerais - continuou a coruja -, nossa Mãe Terrena trata uma semente como uma unidade de memória. Assim como o chip do computador que vocês conhecem, as sementes também guardam informações. O chip do computador tem silício dentro de uma molécula de água. Esse silício guarda a informação que alguém colocou lá dentro. Isso intuitivamente foi copiado da natureza viva que a Mãe Terrena criou, porque também há silício dentro de uma molécula de água na semente. Só que a informação que está lá dentro é biológica e é milenar.


           Ricardo ficou pensativo por alguns segundos e tornou a perguntar:


           - E como podemos ter acesso às informações que elas contém? 


            - Como a Lena havia falado, podemos acessar estas informações através da germinação - respondeu Gluer. Depois de germinadas, as sementes passam a ter 20 mil vezes mais valor nutritivo do que antes. Os grãos germinados permitem que se coma menos quantidade e com muito mais qualidade. Além da incrível potência nutricional, essas pequenas unidades de memórias vivas contêm informações "matrísticas", ou seja, relacionadas à nossa matriz, nossa origem. Quando comemos as sementes germinadas trazemos informações biológicas para nosso organismo e cérebro, possibilitando que se regenerem. Isso proporciona termos acesso à sabedoria de nossa Mãe Terrena. No entanto, se cozinhamos as sementes, como os humanos fazem, rompemos com as informações e perdemos um importante elemento de ligação e contato com a nossa Mãe. O homem se desvinculou Dela e se tornou um elemento amorfo no tocante à natureza. Não mais podemos esperar dele ações conscientes, pois o conhecimento dado pela nossa Mãe Terrena, através das sementes, é queimado pelo fogo do cozimento, que destrói a compreensão acerca do elo homem-natureza. 




            Naquele momento Lena interviu e disse:

            - Precisamos seguir agora. Teremos muito tempo para conversar depois que recebermos o Grande Silêncio.

            - Claro - falou Ricardo, ligeiro.

        
    Ricardo ficou espantado com as informações que recebera e continuou a passos largos, quando viu se aproximarem de um vale, fechado por montanhas de formas cônicas dispostas num arranjo que mais parecia um impressionante cenário helênico. Lena então informou:

           -  Vamos entrar. É neste vale, de estranha beleza, que há séculos atrás abrigava tribos indígenas, onde homenageamos o Grande Silêncio.

            Ricardo olhou estupefato à sua volta e notou que o local estava repleto de uma flora inteiramente "sui generis" com vellózias, bômbax, meriânias, mandevilas, alamandas e as famosas e populares orquídeas. Dali de onde estavam, era possível vislumbrar também o curso sinuoso de um rio, alimentado pela descarga das vertentes que desciam das colinas. Gluer aproveitou o momento de contemplação e disse-lhe:




             - O Grande Silêncio vem nos visitar neste vale sagrado para nos refrescar, de modo que possamos, a cada novo dia, escutar com ouvidos novos o canto dos pássaros e ver com olhos novos as cores do sol que se levanta e que se põe. E todos esses simples dons da nossa Mãe Terrena devem fazer a alegria brotar dentro de cada um de nós, como brota a fonte, de repente, num sítio improdutivo. 

                  Completamente calado, Ricardo parecia inspirar a sacralidade da atmosfera contida na natureza daquele ambiente. Lena, então, avisou:

            - Ricardo, prepare-se para recebê-Lo e sentir a alegria pura de estar vivendo neste momento. Considere-se um privilegiado, pois você é o segundo animal humano a estar aqui conosco e conhecer nossos segredos.

              Ricardo agora ficou com uma pulga atrás da orelha. Quem seria o primeiro homem a estar ali? Por acaso fora Dom Pedro II? Será que haveria alguma referência disso nas cartas encontradas no convento das Macaúbas?

            A luz da lua, agora, parecia brilhar com mais força sobre as plantas, águas e terras daquele vale. Naquele exato instante, Ricardo ficou extasiado com o espetáculo que começou a acontecer em plena mata selvagem. Numa larga área, todos os Cereus Jamacaru, numa sequência metronômica, abriam ritmicamente as suas grandes flores alvas. Sob a luz do luar, as corolas multipétalas se abriam, expondo as gargantas, para onde multidões de insetos eram atraídos.


                

                
         
                Lentamente, porém, uma quietude inexplicável foi descendo sobre o ambiente. Ricardo viu, então, seus pensamentos e emoções caírem, quais folhas mortas ao chão. E era como se o tempo estacionasse e toda a criação deixasse de respirar. Um silêncio sepulcral tomara conta da atmosfera. E ele também começou a encontrar um espaço de silêncio e quietude dentro de si mesmo, onde havia uma força tranquila, pacífica, embora grande, que fazia brotar um conhecimento silencioso, que transcendia o pensamento e a emoção.

             Neste instante, no olho da sua mente, a imagem do seu animal de poder, o Tigre, apareceu-lhe com o aspecto de um soberano, ao mesmo tempo em que continuava a sentir uma força intensa invadir-lhe.

             - Você conseguiu chegar a este espaço sagrado, Ricardo - disse o Tigre.

             Ricardo não ousou interromper, tal a emoção que lhe permeava a alma. O Tigre então prosseguiu:

             - Todos os seres humanos podem desligar-se de todas as coisas triviais que se agitam e borbulham na superfície da mente e alcançar o silêncio que está por baixo até chegar ao Reino dos Céus. É este lugar dentro de Si onde há paz perfeita, onde nada é impossível, onde habita a força de Deus.  

              Ricardo refletia sobre o que lhe era dito. Seu animal de poder, então, continuou o ensinamento:

             - O reconhecimento da tua própria fragilidade é um passo importante e necessário na correção dos teus erros. O medo que você sente ao longo de todo o caminho é um sinal seguro de que você ainda está confiando na sua própria força. Em pouco tempo, porém, aprenderá a ter contato interno com o seu próprio centro divino, essencial, e isto colocará tua confiança na força exclusiva de DeusA lembrança Dele permitirá que a Sua força tome o lugar da tua fraqueza. No instante em que fizer isso,  não haverá nada a temer. Deus será a tua segurança em qualquer circunstância, porque você estará em conexão direta com o seu ser mais profundo.

           Aquelas palavras acertaram Ricardo em cheio, fazendo com que seu retraído coração se enchesse novamente como se fora um poderoso rio que houvera sido intumescido pelas forças das chuvas, numa tempestade de primavera. Foi impossível frear as lágrimas pesadas que descerraram os portões enferrujados e envelhecidos do seu orgulho humano, indo aguar os campos do seu sentimento, num pranto ininterrupto. Chorando, viu passar em sua tela mental, em questão de segundos, importantes cenas da sua vida. Sua família, amigos, colegas, todos haviam sido deixados para trás. Quão difícil fora para Ricardo tomar as decisões que o impulsionaram a chegar até ali. E, no entanto, ele agora desfrutava um pouco de sabor em meio a tantos dissabores experimentados. Por isso, nada mais fazia sentido senão acompanhar o significado daquela ocasião: era como se o Céu e a Terra o convidassem a experimentar a dança harmoniosa das grandes esferas, após vitoriosa conquista sobre os pesados fardos que o prendiam.

              Todos os animais, cada um a sua própria maneira, estavam sendo renovados naquele instante de profunda sacralidade. Ricardo, então, aos poucos foi se recolhendo. Fechou seus olhos e adormeceu ali mesmo, sentindo-se inteiro, feliz e em paz. 


Continua


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