segunda-feira, 25 de abril de 2011

Um retorno às questões fundamentais na ciência e na educação

Por Tiago Bueno Camargo
tbcsol@gmail.com
  
Assim, embora um norte-americano possa, agora, abraçar a religião de seu gosto, não lhe é permitido pedir que, na escola, seus filhos aprendam mágica e não a ciência. Existe separação entre Estado e Igreja, não existe separação entre Estado e ciência. [...] Seja como for, a ciência e as escolas estarão cuidadosamente separadas, como estão, hoje em dia, religião e escolas.     
Paul Feyerabend

            Nascemos, crescemos e morremos. Nossa ciência tem-se ocupado, até agora, em entender as etapas físicas, químicas, biológicas e psíquicas destas três fases. Não seria o objeto central de seu trabalho, portanto, explicar questões fundamentais, com as quais o ser humano sempre se deparou, tais como: quem eu sou? O que estou fazendo aqui? O que são a vida e o universo? Nesse sentido, pode-se dizer que nossas crianças, jovens e adultos têm obtido uma formação incompleta, à medida que não se ocupam dessas outras questões. Concordando com Mircea Eliade, o fundamento da identidade humana, sua dimensão mítica e sagrada, tem sido, na maior parte dos casos, omitida, relegada a segundo plano na escola, para ser ensinada e discutida, por exemplo, em uma disciplina de ensino religioso, que os alunos, talvez por nosso hábito um tanto pragmático, cursam-na mais por obrigação, por não compreenderem seu real sentido ou importância. Algo parecido também se verifica com o ensino da Filosofia. Isso, porém, tem conseqüências profundas em nossas vidas. Uma delas é o enfraquecimento da curiosidade, combustível imprescindível à plena manifestação da aptidão natural que o ser humano possui de admirar-se e encantar-se com sua própria natureza e condição.  A outra é a compartimentalização e o modo utilitarista com que, atualmente e de modo geral, lidamos com a natureza, incluso nela toda a espécie animal.

              Mundos separados
             É certo que, no surgimento da ciência, o rompimento com todo pensamento mítico foi necessário, visto que era imperioso libertarmo-nos do jugo exercido pelas superstições, jugo este que ditava as regras do que se deveria ou não ser pesquisado baseado em preconceitos sem suficiente fundamentação racional ou empírica. Para isso, mitigou-se, de certo modo, com o questionamento de valor moral. A pesquisa deveria ser livre, e isenta (ao menos temporariamente) de preocupações com a ação e suas conseqüências morais.  René Descartes, por exemplo, ao tratar da fundamentação do conhecimento, relegou para o campo da Filosofia toda reflexão sobre a natureza humana e seu destino, separando-a da investigação empírica da natureza, campo este a ser pesquisado por um conhecimento objetivo, científico. Ainda, a idéia de experimentação e o ideal de que o homem poderá dominar tecnicamente a natureza, propiciaram um caráter eminentemente utilitário ao conhecimento, de modo que passamos a viver e nos relacionar com o mundo guardando, silenciosamente, a crença de que a importância de algo se mede por sua utilidade. Assim, assistimos à eclosão e ao predomínio, no Ocidente, de uma forma de ver o mundo que, ao abstrair a reflexividade filosófica, mutilou, em boa medida, o germe que proporciona ao homem a capacidade de pensar sua própria condição. Portanto, questões perenes e fundamentais da existência humana perdem sua importância, na medida em que nosso modo de vida utilitarista corta o caminho e ganha tempo indagando logo "para que serve"? Qual a utilidade desse tipo de reflexão? Que mudanças trará para minha vida prática?
             Esse alheamento à si mesmo, bem como o sentimento de estar separado da natureza, refletem e, recursivamente, configuram o estado de espírito do atual homem moderno.

             Semelhanças entre mito e ciência
             Junto a esta forma científica de ver a realidade, nascem outros mitos e religiões, para substituir os anteriores e prover esta dimensão essencial do humano. Dessa forma, passamos a acreditar no mito da infalibilidade da razão, proposto pelo racionalismo clássico, ou tornando-nos adeptos de uma religião chamada Progresso, sob o disfarce do ideal iluminista.  Assim, a fé, antes depositada em Deus, é transferida, agora, à razão. E não há nenhum mal nisso. Foi algo necessário para libertar o pensamento humano. No entanto, Feyerabend afirma muito bem que “as semelhanças entre ciência e mito são inegavelmente de espantar, tornando-se necessário, pois, reexaminar nossa atitude em face do mito”. Nesse sentido, a felicidade, que da mesma forma havia sido prometida no Reino dos Céus, é substituída, enlouquecidamente, pelo consumo, gozo e acúmulo dos bens terrestres, tão bem expressos no modo econômico que hoje vivemos. Os bens da Terra, porém, não são infinitos como os bens do Reino dos Céus, eles acabam, são finitos. E nessa corrida louca para obtê-los, somos absorvidos pelo “sono do cotidiano”, como bem ensina Jostein Gaarder. Ou seja, somos incapazes de parar e questionar profundamente nosso modo de viver. Perdemos a curiosidade da criança que ainda é filósofa, antes de se habituar com o mundo, como fazem os adultos. Edgar Morin ensina muito bem que “as dúvidas que uma criança tem são praticamente as mesmas dos filósofos. Quem somos, de onde viemos e para que estamos aqui? Tentar responder a essas questões, com certeza, vai instigar a curiosidade dos pequenos”. Albert Einstein fazia perguntas de criança sobre o funcionamento do universo: - Por que um homem não sente seu próprio peso ao cair de um telhado? Ressurge, aí, a necessidade imperiosa da filosofia na educação, na escola, em nosso dia-a-dia, para habituarmo-nos novamente à curiosidade, à investigação, ao estranhamento deste modo atual de vida, em que nos afastamos da natureza e a submetemos ao nosso bel-prazer. O maior problema, hoje, como dizia nosso saudoso Lutzenberger, não é científico nem tecnológico: é cultural, filosófico. Nossa visão incompleta do mundo nos faz querer agredir o que deveríamos querer proteger. Contudo, embora estejamos atravessando um período de incertezas, vemos ocorrer o surgimento e emergência, no cerne da própria ciência, de um conhecimento que reúne, religa e reintegra, novamente, conhecimentos até então separados. Parece existir um contramovimento na ciência moderna que reencontra os grandes problemas filosóficos, onde questões fundamentais da existência humana são retomadas e colocadas em discussão.

            Os limites e a transgressão do conhecimento
           De fato, o surgimento da ciência ecológica, muito mais que um movimento político-ambiental, recolocou o diálogo com nossos problemas e necessidades atuais. Vemos homem e meio-ambiente reencontrarem-se, forçando-nos a repensar, em todos os âmbitos, atitudes e valores que sejam sustentáveis à vida do planeta e do próprio homem. Ainda, o interesse pela origem, sentido e significado da vida também ressurgiu no âmbito científico. Os cientistas, na busca para encontrar o bóson de Higgs (partícula fundamental que, em tese, dotou todas as outras de massa logo depois do Big Bang), “brincam de Deus”, e testam seus limites, vendo-se obrigados a resvalar para questões fundamentais da origem da vida e do universo. Em boa medida, uma espécie de renovação intelectual e filosófica parece impelir o homem a dirigir seus atos a um objetivo maior, de modo a caminhar em sua direção. Foi isto que nos permitiu a maior aventura intelectual de todos os tempos, que foi a de tentar entender como tudo surgiu através da explosão de um ponto minúsculo que concentrava toda a energia do cosmo, o “Big Bang”. Tudo indica que o universo nasceu com o “Big Bang”, mas o que havia antes? Realmente, Ilya Prigogine parece ter acertado ao afirmar que “hoje estamos tomados pelo mistério do universo”. Por isso, importa ao homem saber, acima de tudo, quem ele é? De onde vem e para onde vai? Qual é o seu destino? Os conceitos que alimentamos e fazemos sobre o universo e suas leis, da função que cada um deve exercer sobre este vasto teatro, recursivamente, retroagem sobre nós, alimentando e dirigindo nossos atos e condutas. As idéias que pensamos e alimentamos ganham vida dentro nós. Muitas vezes perdemos o controle sobre elas, de tal modo que exercem o controle e o poder absoluto sobre nós, humanos. Refletindo sobre elas, podemos estabelecer um objetivo em nossas vidas e para ele caminharmos. De certo modo, exercem o papel de deuses, entidades vivas a guiar-nos. Assim acontece com os diversos sistemas e teorias criados, na qual gerações são conduzidas por elas. Por exemplo, pego um fenômeno atual que é a idéia apresentada pelas propagandas da Coca-cola "Abra a felicidade". Estas palavras-chaves estão associadas à imagem do produto, promovendo o que chamaríamos de controle invisível da mente. Ou seja, as informações devem ser alojadas na memória de longo prazo do indivíduo, a fim de que seu cérebro reproduza estas categorias de percepção e não consiga distinguir a realidade da ilusão. Como o ser humano busca por felicidade a cada respiração, a propaganda propõe verdadeiros moldes sobre os quais se vestirão nossas tendências individuais, de modo que possamos encontrar rapidamente em nossa memória os arquivos "instalados", sob medida, pela propaganda. Isto constituirá a nossa "história incorporada". É essa "história incorporada", inscrita no cérebro, que funcionará como princípio gerador do que fazemos, como um conjunto de disposições para a ação, através do qual sejamos levados a facilmente organizar nosso mundo a partir das escolhas, opções e comportamento de consumidor. 

          Em boa medida, isto significa que o mau uso do avanço científico também permite o avanço da cegueira e da dominação, de modo que tornamo-nos incapazes de ver a conexão onde existe conexão. Sofremos uma carência fundamental, a ausência da capacidade do sujeito de se conhecer e refletir sobre si mesmo. Ao mesmo tempo, a maior parte dos professores e pedagogos parece afastar sistematicamente de suas lições tudo o que se refere ao problema da vida, às questões de termo e finalidade. Edgar Morin explica que a educação ainda não está fazendo sua parte. O sistema educativo não incorpora essas discussões e, pior, fragmenta a realidade, simplifica o complexo, separa o que é inseparável, ignora a multiplicidade e a diversidade. Os jovens têm de conhecer as particularidades do ser humano e o papel dele na era planetária que vivemos.
               Portanto, a educação deve viver esse desafio e permitir ao espírito humano avançar, passo a passo, no conhecimento do ser e do universo, de modo a promover o reencontro com o assombro original frente ao mistério, que sempre coloca as questões fundamentais de todos os tempos: quem somos? De onde viemos? Que mundo é esse? Qual o sentido e o fim da vida?
                As grandes questões levam o indivíduo a repensar e integrar, ao saber técnico e operacional, a busca de sentido. Isso ocorreu com boa parte dos físicos do começo do século XX, conforme ensina Fritjof Capra. Segundo ele, a exploração dos mundos atômicos e subatômicos colocou-os em contato com uma realidade estranha e inesperada. Em seus esforços para apreender essa nova realidade, os cientistas ficaram dolorosamente conscientes de que suas concepções básicas, sua linguagem e todo o seu modo de pensar eram inadequados para descrever os fenômenos atômicos. Seus problemas não eram meramente intelectuais, mas alcançavam as proporções de uma intensa crise emocional e, poder-se-ia dizer, até mesmo existencial.
               Esse mal estar ocorre por que os cientistas, em grande parte, consideram que em seu ofício não há lugar para o pensamento mágico. Todavia, parece que o próprio progresso do pensamento humano ruma exatamente para uma reintegração com o pensamento mágico. Carl Sagan também já dizia que a espécie humana nasceu da poeira cósmica. A afirmativa dele, contudo, não faz alusão somente ao fato de sermos feitos dos mesmos elementos que deram origem às estrelas, mas revela a imaginação do pensador livre, capaz de ir além dos limites invisíveis que aprisionam, disciplinam e condicionam a maior parte dos cientistas, espremendo-os em moldes convenientemente dimensionados, com uma precisão que provocaria inveja às principais organizações internacionais de padronização industrial. Àqueles, porém, que conseguem reter um idealismo primordial e se arriscam a ver algo mais por detrás do grande cenário mecânico-materialista montado pela ciência profissional, sofrem o preconceito e escárnio impostos pelo “establishment” acadêmico. 

             Os animais também são parte da natureza
            Desse modo, o problema mítico nos remete ao filosófico/científico/educacional, e, de modo geral, ao problema ecológico, que nos leva a repensar nossa relação com a natureza, exigindo-nos uma mudança de atitude. Ilya Prigogine já afirmava que embora “compreender a natureza foi um dos grandes projetos do pensamento ocidental, ele não deve ser identificado com o de controlar a natureza”. Portanto, é imperioso ensinar às crianças e jovens que os animais também são parte da natureza e não estão na Terra para submeterem-se aos caprichos humanos. Possuem sentimentos, emoções e desejam viver tanto quanto os seres humanos. Devemos ensiná-los que os animais estão sofrendo muito na mão do homem. A carne, antes de chegar temperada ao seu prato, era um animal que, na maior parte dos casos, foi cruelmente espancado e torturado, como acontece hoje nos diversos matadouros ou, simplesmente, perdeu o direito à vida, confinado que estava nas engordadouras modernas dos processos industriais. Talvez seja por isto que Gaston Bachelard, acertadamente, tenha colocado que “o empenho do saber parece eivado de utilitarismo”. Isso é corroborado pelo fato de que encarecemos, com toda a responsabilidade da ciência, a necessidade de proteínas e gorduras diversas, mas esquecemos de que nossa inteligência, tão fértil na descoberta de comodidade e conforto, possui recursos de encontrar novos elementos e meios de incentivar os suprimentos protéicos ao organismo, sem recorrer às indústrias da morte.

             Não é conveniente a algumas indústrias que isso seja divulgado, por ferir seus interesses econômicos. No entanto, é preciso, é urgente e inadiável, que aprendamos a nos alimentar de modo não-violento, respeitando a vida dos animais, que não são máquinas. Podemos, muito bem, resgatar hábitos saudáveis ao assimilar os alimentos naturais. Verduras, grãos e germinados, brotos, frutas e legumes de todos os tipos, quando não passam pelos processos de cozimento e industrialização, propiciam ao homem os elementos vivos, necessários, capazes de lhe regenerar e nutrir as células do organismo físico.

               Sentido de ligação com o Universo
              Nossa ligação com os processos vivos da Terra, bem como a reflexão sobre a busca dos fundamentos de nossa identidade, podem ser retomados. Compreender aquilo que se chama “condição humana” tornou-se uma profunda necessidade, uma espécie de “novidade” imperativa de nossa época. Podemos organizar e guiar o pensamento para um “novo espírito científico” que restaure a abertura a todos os grandes problemas e questões filosóficas fundamentais, de modo a recolocar, novamente, o ser humano e o planeta no centro do ensino. Esse foco, se adotado ao longo de nossa escolaridade, favoreceria, conforme ensina Edgar Morin, “conhecer o humano e não separá-lo do Universo”. Nesse sentido, tão logo nos permitimos pensar na natureza como algo vivo e atuante em nós, começamos a observar que nunca perdemos nosso “sentido de ligação” com o mundo natural. É como se emergisse de nosso interior uma “parte adormecida” que sempre soube disso. Por conseguinte, começamos a religar a vida íntima com as forças criativas manifestadas em toda a evolução, capacitando-nos, como diz o biólogo chileno Humberto Maturana, a voltar a viver nosso lado matrístico, ou seja, ligado à matriz, à origem da vida, e, com a mesma naturalidade e curiosidade de uma criança, poder manifestar novamente a necessidade de descobrir quem somos e por que vivemos? O que estou fazendo aqui? O que é a vida ou o Universo?



Referências bibliográficas

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GAARDER, Jostein. O mundo de Sofia: romance da historia da filosofia. Sao Paulo: Companhia das Letras, 1995.
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 MATURANA, Humberto R.; ZÖLLER, Gerda V. Amar e brincar: fundamentos esquecidos do humano do patriarcado à democracia. São Paulo: Palas Athena, 2004.
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