segunda-feira, 25 de abril de 2011

O Desenvolvimento Emocional





  A área das emoções é uma área vital para qualquer ser humano que deseja seu crescimento em direção à liberdade e à integridade. Qualquer pessoa que está no caminho do crescimento interior deve procurar saber da importância das emoções: que não devemos reprimi-las, que devemos chegar a um acordo com elas, que finalmente devemos liberá-las. Mas nem sempre está claro como isso realmente funciona. Inclusive existe uma semelhança notável entre a forma como lidamos com as nossas emoções e a forma com que lidamos com as nossas crianças.

         Houve um domingo, por exemplo, em que eu estava ajudando minha mãe a carregar pratos e talheres para o salão de festas, pois era o aniversário dela. Uma criança de seis anos, chamado Rickson, repentinamente passou por nós chorando. Minha mãe chamou-o e perguntou o que havia acontecido. Sua resposta, choramingando, foi: "meu brinquedo de argolas quebrou". Ela rapidamente, com a intenção de ajudar o garoto, disse-lhe que não era mais preciso chorar, pois o brinquedo poderia ser aproveitado de outra maneira. Mesmo assim, ele continuou chorando. Eu prestava atenção a tudo o que ocorria, pois sabia que a criança era sincera e espontânea em suas emoções e não as esconderia nem as reprimiria, até que os adultos a incentivassem a fazer isso. Dessa forma, antes que minha mãe insistisse no argumento, fiz uma intervenção dizendo:

     - Mãe, deixa que eu converso com ele.


    Eu tinha consciência de que preparar uma criança emocionalmente significa fazer com que ela cresça sendo capaz de suportar o sofrimento inerente à própria condição humana. Por isso peguei o garoto pela mão e fomos até um banco próximo. Sentamo-nos. Procurei, então, refletir  o que ele estava sentindo, através de uma pergunta:

       - Rickson, você está triste?

       - Sim – responde ele chorando.

      - Você também está chateado, não é mesmo? – continuei indagando.

     - Sim, eu estou chateado por que minha argola quebrou – disse ele.

    - Eu só quero dizer que a sua tristeza e chateação são bem-vindas, e que você pode chorar – falei isso trazendo sua cabeça para junto de meu ombro.

    Ele chorou por cerca de três minutos, enquanto eu acolhia e acariciava sua cabeça. As lágrimas então secaram. Ele ficou ao meu lado mais um pouco e logo saiu para brincar.

    Continuei auxiliando minha mãe com as atividades relativas à festa, até que outra criança apareceu chorando. A cena era idêntica à anterior, só que agora quem chorava era o Gabriel, de oito anos.  O brinquedo dele era igual ao que o Rickson carregava, e ainda havia sido quebrado no mesmo lugar. Minha mãe, obviamente, querendo o melhor para a criança, repetiu as mesmas palavras que utilizara anteriormente. Eu intervi novamente, chamando o Gabriel. Algo parecia gritar aos meus ouvidos, chamando-me a atenção para um novo aprendizado. As crianças estavam sendo expostas a uma formação cultural que invalidava suas emoções e sentimentos, o que as impede de compreender quais de suas reais necessidades não estão sendo atendidas. Quando a vida interior dessas crianças não é refletida de volta para elas, através de pais ou pessoas compreensíveis, que dão nomes aos seus sentimentos e ouvem-nas com o coração aberto, elas podem se fechar em si mesmas e agir de um modo que parece irracional e impossível de se lidar. Desde cedo, por exemplo, é possível perceber que elas são ensinadas a dar as costas ao que realmente acontece dentro delas: medo, desespero, depressão e solidão. Geralmente ouvem do mundo à sua volta "Afaste-se de emoções negativas, seja positivo, faça o melhor, seja útil". Estes tipos de invocações e conselhos criam dentro delas um medo da sua própria sombra e as tornam alienadas dos sentimentos mais profundos. O que acaba acontecendo é que elas mesmas não conseguem mais entender o que se passa no interior de si mesmas. Por isso, peguei o Gabriel pela mão e levei-o para um banco próximo, afim  de acender luz dentro dele, já que estava disposto a dar atenção à sua parte mais escura e negligenciada. Neste instante, coincidentemente, apareceu o Rickson, falando-me o seguinte:

        - Fala para ele o que você me falou.

      Foi isso que fiz. Repeti para o Gabriel as mesmas perguntas e acolhi sua cabeça junto ao meu ombro. Repeti também que a tristeza e a chateação dele eram bem-vindas. Ele chorou muito, bastante mesmo. A minha surpresa, porém, foi em relação ao Rickson, que começou a falar ao Gabriel nestes termos:

       - Chora, chora porque faz bem. Eu chorei e me fez muito bem.

            A festa de aniversário de minha mãe acabou e eu retomei meu caminho de volta para casa. A cena porém acompanhou-me, qual poeira colada às sandálias de minhas lembranças. Naquele momento, eu que já havia estudado sobre preparação emocional de crianças, vi-me impelido a um novo aprendizado: ser original como elas. Quando me dei conta disso, de que me faltava a experiência de ser verdadeiro e espontâneo, foi impossível frear o pranto que, convulsivamente, emergiu, lavando todo o meu rosto. Não sei dizer por quanto tempo duraram aquelas lágrimas. O alívio, porém, foi imediato.

    Eu confesso que durante aquela última semana, a situação no ambiente em que eu trabalhava havia sido bastante desafiadora para mim. Mas graças ao aprendizado que tive com aquelas duas crianças, consegui chorar o suficiente para libertar a dor que oprimia meu peito. Eu sentia muito medo de não ser bom o suficiente, em face do que me exigiam. Esse medo, como é comum acontecer, havia sido abafado, sufocado e reprimido, tornando-me pesado, ansioso, preocupado e tenso, visto que aprendi muito bem, ao longo de uma vida inteira, a esconder minha própria vulnerabilidade. 
      
        Com freqüência, acredito que, assim como eu, muitas pessoas também tenham sido educadas com crenças e estruturas que acabaram se enraizando em nossa psique e que nos impedem de nos conectarmos com nosso própria universo interior. Há uma espécie de desencorajamento cultural com relação a desenvolvermos a consciência de nossas próprias necessidades. Transcorre disso que a grande maioria das pessoas cria um diálogo interior impregnado de julgamentos, tornando-as alienadas daquilo que precisam para agir e atender a essas necessidades. Por exemplo, para saber se este é o seu caso, procure reconhecer se há uma mensagem autêntica gritando através das suas emoções: um anseio de ser quem você é e de mostrar a energia original da sua alma para o mundo.  É impossível reprimir ou ignorar a necessidade que temos de encontrar um espaço para expressarmos nossa energia com segurança e liberdade. Isto significa ser quem somos. Significa também sairmos deste estado de auto-negação, onde normalmente mantemos escondidas e suprimidas certas partes de nós mesmos, formando um peso sobre nossas vidas, aprisionando-nos em emoções e estados de humor que nos sufocam.  

        Somos um exemplo, quando realmente apoiamos a nós mesmos, ouvimos com atenção os nossos sentimentos, vivemos de acordo com eles e nos libertamos dos julgamentos externos. Mas para muitas pessoas, isto ainda é muito difícil, o que as leva a entrar em colapso físico e emocional quando são confrontadas com as energias velhas e limitadoras de muitos sistemas educacionais, ambientes profissionais ou métodos de criação tradicionais. A adaptação, nesse caso, não é uma escolha. Nossas emoções irão protestar num nível profundo, levando-nos a ter que lidar com intensas frustrações e dúvidas internas, o que tornará provavelmente nosso comportamento problemático. Estes velhos padrões, que não têm mais nenhuma conexão com o coração humano, esperam ser transformados a partir do interior, por pessoas que ousam abrir novas perspectivas.   

       Se este é o seu caso, você pode se conectar com o seu propósito de vida ou inspiração mais elevada a qualquer momento, através de ouvir os seus sentimentos, a voz do seu coração, e a agir de acordo com eles. Por favor, é importante que não se intimide com relação a si mesmo. Existe paixão e inocência no seu coração e alma. E eu encorajo-o, principalmente nestes tempos, a não se esconder mais do seu próprio poder, a compartilhar sua sabedoria com os outros e manter sua paixão desperta. A sociedade espera por você, espera por ideais e padrões inspirados que ajudem as pessoas a se conectar com seus corações e com seus verdadeiros desejos. Somos grandiosos e poderosos, se acreditarmos em nós mesmos.


Autor: Tiago Bueno Camargo





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