segunda-feira, 25 de abril de 2011

Voltando à festa



      Retornei à festa ainda sob o impacto do que havia vivenciado. Não foi simples olhar para todas as pessoas novamente e imaginar que, talvez, sob aqueles rostos felizes, poderia existir tamanha dor, medo e solidão, quanto à minha. Em tempo, essa constatação parecia me tornar mais “humano”, pois assim como eu, muitos ali provavelmente também buscavam energias para aliviar traumas ou confusões não resolvidas.


       Neste momento, em que me dirigia à pista de dança, ao fundo da casa, uma voz familiar me chamou. Era o Cedaior:


       - Eu o procurei por toda parte. Onde você estava? Vamos nos divertir um pouco – falou ele.


        - Eu fui tomar um ar – disse.


    - Você conversou com a Naicha, não é mesmo? – perguntou ele.


      - Sim, conversamos. Fui colega dela na época do colégio e, sinceramente, não sei como ela me reconheceu depois de tanto tempo.


        - Não sabe? – questionou ele. Eu falo de você para ela seguidamente. Temos ido surfar com constância.


       - E porque você não havia me falado sobre isso antes? – perguntei.


      - Por que há um tempo para tudo. Esse é o momento em que estamos conversando sobre isto e eu estou lhe falando agora. Por sinal, você já se decidiu se vai voltar a surfar?


      - O quê? – disse eu, nitidamente espantado.


      - Você precisa voltar a surfar, eu disse.


    - Cedaior, minha adolescência já passou – respondi desapontado.


       - Isso é uma tragédia – falou ele. Você está se medindo por “códigos externos”, do tipo o que é apropriado para a minha idade, para o meu gênero, para o meu status social? Será que não percebe que quando faz isto, você não permite que o sonhador, a criança e o visionário interior, o levem para fora dos limites, conectando-o com o “código interno”, com a sua paixão original?


      - O que você quer dizer com isto? – indaguei, bastante surpreso.


       - Quero dizer que você está se prendendo na pior prisão que existe dentro da cabeça de um adulto: a obrigação de ser normal – falou ele.


       Aquelas palavras atravessaram-me o peito como uma flecha. Fiquei em silêncio por alguns instantes, sentindo-me indeciso e confuso. Vendo isto, ele continuou:


     - Posso imaginar que você não consegue identificar o que o seu coração deseja verdadeiramente. Você amava o surf, o esporte. Como pode largá-lo? – questionou ele, voltando o olhar pesado para baixo. Olhando-me novamente, prosseguiu:


      - Ser "normal" permitiu que você se adaptasse às expectativas do mundo externo e esquecesse de si mesmo. Você perdeu o contato com a energia original da sua alma, sendo influenciado pelas exigências e padrões da sociedade. 


         - Eu tive que assumir as responsabilidades e obrigações da vida adulta – tornei a falar.


        - Isso é uma tragédia, eu repito. O que houve é que você se encheu de conceitos que lhe dizem que tem que trabalhar duro, permanecer pequeno e focalizar somente o que é possível em vez daquilo com que sonha e deseja, não é mesmo? Esta é a pior prisão que existe sobre a Terra, da qual eu estou lhe falando.


         Fiquei em silêncio, por alguns instantes, procurando digerir aquilo tudo. Uma espécie de angústia pareceu dominar-me. Cedaior logo percebeu o que acontecia e então continuou:

          - Saiba que você tem o poder de deixar sua criança interior retornar à vida para cantar, brincar e surfar outra vez. Sua missão depende da sua capacidade de ter alegria e de receber como uma criança. Mas para que isto aconteça, é preciso se atrever a dar um passo para fora da trilha conhecida, desviando-se dos objetivos e ideais da sociedade, que o mantém pequeno e medroso.


        Ele tinha razão. No fundo, eu desejava muito voltar a surfar, mas na minha cabeça aquilo não era mais possível. Neste instante, vimos que do outro lado da pista de dança encontrava-se a Naicha, solta, bailando como as pétalas de uma flor, quando sopradas pelo vento.


      
       Juntamo-nos à ela e começamos a dançar também. Enquanto eu procurava me divertir, era impossível deixar de pensar nas palavras ditas pelo Cedaior. Eu não sabia muito bem o que fazer dali pra frente e isto me deixava inquieto. Meu rosto traduzia a insegurança que havia em meu interior, por mais que eu buscasse escondê-la. Naicha pareceu notar o que ocorria e veio em meu auxílio, dizendo:

      
       - Relaxa e se solte mais. Dance! Sei que você está atravessando momentos confusos.

     
     Eu olhei para ela dando a entender que a escutava. Ela então continuou:

    
    - Sempre há uma mão orientadora na crise, que procura ampará-lo e lhe mostrar o caminho. Por isso, procure não ser impaciente consigo mesmo, julgando seus sentimentos e inseguranças. Desse modo você nega a sua dor interna que deseja ser reconhecida e trazida à consciência. 



      Eu sorri para ela, simplesmente. Diferentes pessoas também dançavam naquele momento. Eu sinceramente não me sentia à vontade. Ela então voltou a falar ao meu ouvido:


       - Você está entrando num estágio do seu desenvolvimento no qual não poderá mais controlar o seu crescimento. A área da expansão de consciência na qual você está ingressando tem a ver com entrega e desapego. Será simplesmente impossível tentar controlar a enorme onda de energia que irá fluir daqui pra frente, através do seu ser.



       Naicha falou isso e seguiu dançando, vibrante. Eu tomei coragem e fui atrás dela, dançando também. Começava a tocar neste instante uma música do Cazuza, chamada "Ideologia". Aproximei-me o quanto pude dela e disse:



       - Naicha, qual é o significado do que você acabou de dizer?



       - Ricardo, entrega e desapego significa que de agora em diante não existe nada que você "deva fazer" na sua vida. É o momento de realmente se conceder esta liberdade, para que sua vida flua sistematicamente suave e fácil - falou ela.



       - Mas isso vai contra tudo o que sempre aprendi - disse surpreendido.



       - Sim, eu sei que as idéias que você aprendeu foram necessárias para conhecer o mundo, mas são elas que, ao mesmo tempo, o desfiguram. No fundo do seu ser, algo quer despertar e mudar, e isto se traduz primeiro como a necessidade de um novo modo de pensar. 



      - Isto quer dizer o que, Naicha? - continuei perguntando.



     - Quer dizer que a vida deve ser vivida a partir de outros princípios, Ricardo. Imagine-se, por exemplo, vivendo livre da própria idéia de metas e conquistas. Imagine dizendo para si mesmo: "Eu sou como sou, e estou totalmente bem do jeito que sou." Que libertação, hein! - riu ela. 



      Continuamos a dançar, enquanto a letra da música do Cazuza dizia: 

"meu partido é um coração partido. Minhas ilusões estão todas perdidas, e os meus sonhos foram todos vendidos, tão barato que eu nem acredito..." 

       Naicha, então, voltou a falar:



       - Se puder permitir a si mesmo manter-se relaxado a este ponto que estou lhe dizendo, as coisas começarão a acontecer para você, sem que tenha que trabalhar duro para isso. Se puder ser uno consigo mesmo e aceitar as coisas como são, você atrairá um fluxo de paz que trará milagres à sua vida. Ao se aceitar como é, você diz "sim" para a vida e para o fato de estar aqui na Terra, e dá a si mesmo a permissão para receber tudo o que deseja, simplesmente porque você é quem é, uma parte indestrutível de Deus, valorizada e amada incondicionalmente.

     

     Eu procurei fazer o que ela dizia e seguir dançando. Aquelas palavras caiam como um bálsamo dentro de mim, trazendo-me conforto. Parece que tudo aquilo estava muito "programado". Não sei muito bem como explicar, mas as minhas dúvidas mais profundas ganhavam respostas. Aproveitando o fluxo dos acontecimentos, voltei a falar em seu ouvido:



       - Naicha, o Cedaior me disse que devo desviar-me dos objetivos e ideais da sociedade. O que isso significa exatamente?



         - Significa que você geralmente tem medo da sua própria paixão. Na verdade, todos têm medo de deixar esse fluxo original se expressar em suas vidas, porque ele vai contra o que a sociedade ou a tradição considera apropriado, correto e sensato. No entanto, em cada um existe uma paixão original e uma inspiração que são a própria fonte da sua existência aqui e agora.



         - Me dá um exemplo - pedi.



         Ela voltou a olhar-me dentro dos olhos. Algo provavelmente viria a ser dito do mais profundo de sua alma, tal era o magnetismo a irradiar-se dela naquele instante. A letra da música do Cazuza, dessa vez, dizia: 

"Meus heróis morreram de overdose... meus inimigos estão no poder... Ideologia, eu quero uma pra viver"

         Naicha então disse:

      
      - Vê, temos um excelente exemplo no Cazuza.



           - Cazuza? - perguntei perplexo.



      - Sim, Cazuza foi um meteoro que atravessou uma geração. Disse aquilo que apaixonava sua alma, por mais que não encontrasse nenhum reconhecimento e apoio do ambiente ao seu redor. Ele aprendeu a contar consigo mesmo, vivendo a vida da sua maneira e defendendo aquilo em que acreditava. Manteve-se confiante, acalentando seus sonhos e metas, mesmo enfrentando grandes contratempos por causa do vírus HIV. Isto possui muito valor! Ele lutou para realizar seu desejo interior e não reprimiu o impulso de fazer o que seu coração desejava. Não se preocupou com "como deveria se comportar", com o que esperavam dele, com seus deveres e responsabilidades, etc. Não teve medo de ser ele mesmo, por mais que todos o considerassem louco e desviado. Ele simplesmente foi ele mesmo, um apaixonado pela vida. Disse sim à ela de todo o coração e ela disse sim a ele sem nenhuma reserva. Desse jeito, ele encontrou a chave para o desenvolvimento do seu poder criativo.
     
   
    - Mas e quanto a nós, como podemos encontrar nosso poder criativo em meio a tantas obrigações? - perguntei.
     
  
       - Seu poder criativo fala com você através do seu ventre, das suas víceras. Ele não está preocupado com todas as regras limitadoras e obrigações que você assumiu. Liberte-se disso! Atreva-se a ser quem você é. Atreva-se a viver e a ser grandioso. Sinta a fonte de fogo e paixão jorrando do seu ventre e deixe-a fluir livremente. Seguir a sua paixão e desejo tem um efeito muito mais positivo no mundo do que fazer virtuosamente o que lhe foi ordenado e forçar-se a se submeter a regras e estruturas limitadoras - concluiu ela.
      
  
        Naicha falou aquilo e foi dançar no centro da grande roda, parecendo uma borboleta. Algo muito estranho aconteceu, então. Enquanto seguíamos dançando, percebia que vários caras tentavam se aproximar dela, mas nenhum conseguia ficar ali por muito tempo. Havia algo que parecia protegê-la, tornando-a imune a qualquer influência ou intenção menos digna. Comecei a entender que ela e o Cedaior talvez soubessem de muitas outras coisas que eu sequer imaginava, mas que começava a desconfiar. De repente, porém, Naicha deixou a pista de dança e foi em direção à piscina, sem dizer nada. Não deu muito tempo e a vimos em acirrada discussão com um homem, do lado de fora. Cedaior viu o que acontecia e veio até mim, dizendo:
      

     - Eu sabia que isso não iria ficar calmo por muito tempo.
     

   - Como assim, Cedaior? O que está acontecendo?


   - Aqui nesta festa temos pessoas que representam laboratórios químicos e que defendem as iniciativas da intelligentsia científica. Naicha ficou sabendo disso e esperava pelo momento de encontrá-los.


         - Vamos lá - disse ele.


Continua
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