segunda-feira, 25 de abril de 2011

O retorno da mulher selvagem





        Entrei no carro com Cedaior e Naicha. Partimos. Um silêncio reinou entre nós três e, obviamente, não ousei quebrá-lo. Cedaior levou Naicha até sua casa. Ela ficou introspectiva até a chegada. Antes de descer do carro, porém, falou ligeiramente comigo:

   - Você poderia falar comigo amanhã pela manhã. Poderíamos nos encontrar às 10h, aqui?

    Olhei para o Cedaior e ele fez um sinal positivo com a cabeça. Disse então:

   - Claro, para mim será um prazer! 

    Depois disso despediu-se e seguimos em frente. Aproveitei então aquele momento e perguntei ao Cedaior o que significava  “Ataraxia”? Ele havia falado aquela palavra à Naicha e ela simplesmente emudeceu em meio ao debate com o cientista. O que isto significa realmente? Sua resposta não tardou:

    - Significa imperturbabilidade.

    - Imperturbabilidade? – questionei.

    - Sim – disse ele. Imperturbabilidade significa retornar ao nosso estado natural e encontrar quem realmente somos.

     Eu fiquei quieto, por alguns instantes, procurando digerir aquilo. Ele então continuou:

     - Quando você entrar em contato com seu centro íntimo, conhecerá aquilo que os antigos sábios e filósofos gregos tiveram premonição, ao qual denominaram de “ataraxia”.
  
       Cedaior estava novamente falando sobre metafísica.

       - Quando falei isto à Naicha - prosseguiu ele -, ela logo entendeu que deveria voltar-se para dentro de si mesma e sentir o silêncio, pleno de alegria por simplesmente estar consigo mesma. Isto significa encontrar nossa verdadeira natureza e provar o verdadeiro significado da "ataraxia", um estado de paz interior que é a âncora da divindade dentro de cada um de nós.  

     - Então foi isso que ela fez ficando muda todo este tempo? Estava entrando em contato com a sua verdadeira natureza? 

     - Ricardo, ela entrou em estado meditativo sobre quem ela realmente é. Assim ativou sua consciência superior, que normalmente sabe agir com sabedoria frente a qualquer desafio. Se você lembrar do que aconteceu antes disso, notará que ela havia aceitado os julgamentos do cientista e começou a reagir e se defender. Sempre que nossa comunicação com outra pessoa acontece com base em julgamentos, significa que caímos na rotina do medo e do controle. O contrário disso é mantermos a comunicação emocional, ou seja, falarmos abertamente de nossos próprios sentimentos e necessidades. Porém, atualmente, esta habilidade encontra-se bloqueada na grande parte dos seres humanos.

       Eu estava muito curioso com relação àquilo que Cedaior dizia. Para mim este tema era fundamente importante. Não me fiz esperar e atirei-lhe mais um questionamento:

         - Se sabemos qual é a verdadeira natureza dos seres humanos, por que razão isso se mantém escondido? Por que não falamos abertamente a todos sobre isto? 

         Neste instante, Cedaior pisou no freio bruscamente, levando-me quase ao para-brisas, se não fosse pelo cinto de segurança. Assustado, olhei para fora e vi a nossa frente uma figura exótica. Uma mulher apareceu do nada vestida com um sol e com uma lua, enormes, debaixo dos pés. Sobre a sua cabeça havia uma coroa de sete estrelas e preso ao seu corpo um cartaz com as seguintes palavras: Eu sou a fonte dos cursos d’água velozes e a Mãe das Florestas. Fiquei aterrado com aquilo que via. Meu corpo todo se encheu de medo. Ela olhou-nos com os olhos "vidrados", enquanto percebi Cedaior abaixar a cabeça pensativo. O que seria aquilo? – perguntava-me. Cedaior deu marcha ré, mas antes de desviar dela e ir embora, vimos ela abrir sua mão onde continha um folheto. Estendeu-a para nós. Cedaior abriu o vidro e pegou o papel, agradeceu e saímos. Eu rapidamente o peguei e li. Nele se encontravam os seguintes dizeres: 

                     
                 "Salvem Atalaya"

              

              Aqueles dizeres me deixaram com um ponto de interrogação. Cedaior percebeu a profundidade do acontecimento e disse:

        - Você acredita em sincronicidade?

        - Claro que sim – respondi convicto.

        - Então deve imaginar que não nos encontramos por acaso. E também que essa nossa parada brusca não foi em vão.

        - O que você quer dizer? – questionei.

        - Estamos acompanhando o retorno das "mulheres selvagens" e Atalaya é um ponto essencial de convergência de grande parte desta nova energia que está entrando no planeta.               

        Aquela fala do Cedaior me deixou ansioso demais. Não tive vontade alguma de continuar o assunto. Virei-me para o lado e ele notou imediatamente minha contrariedade. 

       - A Naicha é uma mulher selvagem - disse ele. 

       Voltei-me novamente para acompanhar o assunto. 

       - Você disse que a Naicha é uma mulher selvagem? - perguntei. 

       - Você quer saber mais? - questionou Cedaior. 

       - É claro que quero - respondi.  

       Cedaior olhou-me com certa desconfiança e decidiu ficar quieto.     

        - Você não vai continuar? - indaguei. 

       Nesse instante o relógio indicava 23 horas. Foi então que ele falou: 

       - As mulheres selvagens serão as líderes do novo mundo! Mas para que isso aconteça, elas precisam assumir seu verdadeiro poder. E é isto que a Naicha tem buscado. Se você a observar atentamente, verá que ela deixou de procurar validação externa, através de pais, amigos ou da sociedade. Ela deu o salto para a verdadeira autorização, o que significa realmente acreditar em si mesma e verdadeiramente honrar suas inclinações naturais e seu conhecimento interior, agindo de acordo com eles. Quando uma mulher ousa fazer isso, eu lhe asseguro que muitos homens estarão com ela em cada passo que der.

            - Mas e no passado? Não houve mulheres selvagens? - indaguei.

             - No passado - continuou Cedaior - quando uma mulher era considerada “selvagem”, isto é, independente, não convencional e apaixonada, ela geralmente era rotulada de histérica. Na Idade Média, ela era chamada de bruxa. Mas na verdade, essas mulheres eram movidas pelo amor. Agora está na hora da mulher mostrar novamente seu verdadeiro poder, não de um modo agressivo, mas de uma forma que, ao reconhecer sua verdadeira força, estenda suas mãos para os homens, já que nos tornamos alienados de nossa parte sentimental. 

           Cedaior tinha razão no que falava - pensei. Eu conhecia de perto aquela dificuldade.
  
     - E porque isto aconteceu, Cedaior? 

       - Isto aconteceu devido às energias masculinas dominantes no passado de poder e opressão. Os homens foram forçados a fechar seus corações. Eles tinham que ser fortes e duros, pois esta era a imagem ideal de um homem. Mas, desta maneira, nós ficamos alienados de nossa parte sentimental. Muitos homens ficaram presos em suas cabeças, tendo dificuldade de expressar suas emoções e sentimentos. A falta de habilidade para se conectar com o lado sentimental, o lado feminino, é um ferimento grave. E só conseguiremos viver plenamente se tivermos acesso aos nossos próprios sentimentos. Do contrário, estamos desconectados da própria alma, o que gera uma sensação de solidão e alienação que é percebida como uma espécie de buraco em nossos próprios corações - concluiu Cedaior.

          Eu estava pasmo, frente àqueles conceitos.

          - Eu quero aprender a fazer isso - disse-lhe. Sinto que isto ocorre comigo também.

           Cedaior olhou-me fixamente e disse:

           - Não somente você, mas muitos seres humanos se encontram na "Terra de ninguém".

       - O que é isto 'Terra de ninguém"? - perguntei surpreso.

       - É uma zona perigosa da travessia entre o ego e o coração, pela qual todos nós temos que passar - disse ele. 

      - Eu quero saber mais sobre isso - falei.

      - Mais especificamente - continuou Cedaior - é aquele ponto em que você quer se livrar do velho, mas ainda não pode realmente abraçar o novo, e então é pego pela desconfiança de si mesmo e pela autocrítica. O ponto decisivo ocorre quando você deixa de julgar-se, pois somente ao estar preparado para olhar para si mesmo com uma atitude de interesse e abertura, é que você penetra a realidade da consciência baseada no coração. Provavelmente, a Naicha tratará deste assunto com você, no encontro que terão no centro da cidade. Precisamos de você, Ricardo - finalizou ele.
         


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