sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

O conhecimento de Si

Filme Cisne Negro

          

"Quando você olha para o abismo, o abismo também olha para você."
Nietzsche
         
                      
              Em geral, concordamos que o caminho do autoconhecimento é de inestimável valor, já que ele certamente nos leva a experimentar e conhecer o âmago do nosso ser, a luz que realmente somos, de modo a descobrirmos a canção única e exclusiva de nossas almas. Entretanto, porque ele é tão difícil de alcançar? Talvez porque nos faça enfrentar nossas áreas escuras e doloridas, e, convenhamos, ninguém gosta de saber sobre verdades desagradáveis e pouco lisonjeiras a seu respeito, verdades que são, no entanto, as mais importantes que possamos conhecer. É muito importante, porém, iniciar este trabalho (muitas vezes inapreciável) o quanto antes, já que somente assim nosso crescimento poderá ser orgânico e natural. 

                 Trazer à luz da consciência a enorme sombra que tem alimentado muitas das nossas atitudes e comportamentos, ao longo desta vida, dará consistência ao nosso desenvolvimento interno. Digo que este trabalho é inapreciável porque investigar nosso lado escuro e responsabilizar-se por ele, é principalmente uma aventura solitária. 

              Nesta “aventura solitária”, é possível conhecer melhor a nós mesmos, bem como vislumbrar um pouco melhor as implicações práticas que este caminho produz. Ele provoca a transição da nossa consciência, fazendo com que ela deixe de se apoiar sobre o ego e passe a se apoiar sobre nosso centro íntimo, o coração. Quando isto acontece, começamos a desenvolver uma atitude de abertura, neutralidade e "não julgamento", primeiro com relação a nós mesmos e depois sobre a realidade. 

              Isto possui um efeito curativo, já que esta ausência de luta, esforço ou resistência, é a principal ferramenta e força governadora para se superar o antigo e velho. Ela, por exemplo, não nos levará à depressão, ansiedade e culpa, ao descobrirmos onde estamos em falta com relação aos ideais que almejamos pela melhoria de nós mesmos.

                 Ainda, ao percorrermos o caminho interior, inevitavelmente exploramos a parte submersa do "iceberg", ou seja, aquela parte dentro de nós que habita o inconsciente. Nessa etapa, nossa máscara obrigatoriamente começa a cair, visto que passamos a enxergar mais de perto nossos medos e vulnerabilidades. 

               Este fato de todo não é ruim. Você poderá pensar que está andando para trás no seu processo de crescimento interior, mas está dando um passo importante para a frente. Esta caminhada lhe permitirá ficar íntimo do mecanismo que alimenta seus pensamentos e sentimentos sombrios. Este mecanismo possui seu principal núcleo motivador no medo, e se expressa, sobretudo, pela necessidade de reafirmar-se constantemente, bem como pela busca de validação externa. Trata-se, por isso, de uma via de mão dupla e um profundo paradoxo: o divino quer conhecer profundamente sua própria humanidade e, ao mesmo tempo, o humano quer reintegrar sua divindade. O céu e a Terra encontram-se dentro de um projeto maravilhoso que é o ser humano. 
                


            Quem é você?

             Se você já possui alguma iniciação espiritual, talvez saiba qual é a sua verdadeira natureza. Caso contrário, digo-lhe que a base e origem do seu ser é a própria essência de Deus. Sim, existe uma camada dentro da sua consciência que é pura, divina e íntegra, não tendo sido maculada ao longo das suas várias vidas aqui na Terra. Os antigos filósofos gregos tiveram premonições a cerca deste estado interior divino, ao qual denominaram de "ataraxia", que quer dizer "imperturbabilidade". A evolução espiritual, portanto, comporta um elemento de retorno à origem do seu Ser, a quem você verdadeiramente é, essa Presença interior, que é vasta e todo-abrangente. Se conscientizar Dela, dessa autoridade interna, nos leva ao conhecimento de que somos uma centelha de Deus e que temos a nossa disposição todo conhecimento do qual precisamos.

           Isto é algo fundamental, já que criar uma nova identidade com base nesta Fonte interior de luz permite-nos adquirir consciência de quem realmente somos. Ao fazer isto, constrói-se um "estofo" de representação de si mesmo. Ou seja, uma nova representação e identidade, que possibilita sustentar a sua personalidade rumo ao encontro, aceitação e cura da sua própria "sombra" interior. Esta é a função do seu Ser de Luz, do seu Eu verdadeiro: basicamente trazer clareza, consciência e transparência às estruturas invisíveis de pensamento e sentimento, que moldam a sua vida, de modo a libertá-lo(a) das desilusões e ilusões que lhe tiram seu poder de auto-decisão.


          Heráclito

            Nossa intenção de alcançar a luz precisa ser equilibrada, e não empregada de um modo unilateral, ignorando ou lutando contra a escuridão. Quando isto acontece, cria-se um desequilíbrio e uma resistência sutil (e desprezo) pela vida na Terra. Você precisa estar disposto, por exemplo, a enfrentar sua vulnerabilidade, as áreas do eu-ego que se encontram mergulhadas em negatividade e destruição. Há uma frase do grande filósofo grego, Heráclito, que diz o seguinte: "o caminho para cima e o caminho para baixo são o mesmo caminho". 

          Estes dizeres falam diretamente às nossas almas, levando-nos a buscar conhecer o que realmente acontece dentro de nós. Após tomar contato com a valiosa prática da meditação e aprender como ativar a consciência maior que reside em sua profundidade, é preciso atender às emoções "inferiores", que repetidamente se manifestam em nosso interior. 

           Isto pode parecer algo simples, mas não é. Se aperceber de níveis cada vez mais profundos de dor interna, curando-os, requer coragem e honestidade para não parecer o que não é (até mesmo a seus próprios olhos). Porém, enxergar o pior sem perder a fé em si mesmo, olhar diretamente para o que é falso e não se confundir com ele, produz a ocorrência de um milagre. E o milagre é: simplesmente por termos encarado e admitido o pior, encontramos nosso verdadeiro valor.

           Todos nós, praticamente, crescemos em meio à crença geral e sob o temor de que se focalizássemos sentimentos inconfortáveis, estaríamos correndo sério risco de regar uma erva daninha, servindo apenas para deixá-la mais viçosa e perniciosa. Desde pequenos somos ensinados a dar as costas ao que realmente acontece dentro de nós: medo, desespero, depressão e solidão. Geralmente ouvimos do mundo à nossa volta "Afaste-se de emoções negativas, seja positivo, faça o melhor, seja útil". Estes tipos de invocações e conselhos criam em nosso interior um medo de nossa própria sombra e nos tornam alienados dos sentimentos mais profundos. Por isso, confrontar e responsabilizar-se por tudo o que ocorre em nossa intimidade exige posturas que talvez nunca antes estivéssemos dispostos a adotar: honestidade com o eu; exposição do que é agora; eliminação das máscaras e fingimentos; admitir sem disfarces a própria vulnerabilidade. 

            Neste ponto, posso dizer que um novo início acontece, por mais paradoxal quanto possa parecer. Quando desistimos de fingir e nos esconder, aceitando nossos medos, tristezas e talvez um profundo senso de inferioridade, fazemos chegar a luz da consciência sobre determinadas regiões do nosso ser que, até então, sentiam-se em solidão, banidas, abandonadas e negligenciadas. Essas áreas só poderão ser remodeladas se, em primeiro lugar, sentirem-se seguras, realmente aceitas e escutadas.

           É por isso que a transição do ego ao coração produz uma importante mudança de atitude: aprender a ouvir com profundidade. Quando escutamos a partir do coração, não existe batalha entre o Bem e o Mal. A realidade do coração transcende ambas. O coração não se opõe à escuridão. A consciência baseada no coração está fundamentada na aceitação de tudo, de todas as coisas que existem. Ela nos leva a compreender a unidade subjacente tanto à Luz quanto à Escuridão e aprender o que o Amor realmente significa. Sua força transformadora está na sua qualidade de ser totalmente abrangente, totalmente acolhedora e corajosa. 


Entendendo a sombra e a escuridão
          
              No entanto, para que haja o encontro, aceitação e cura de nossa escuridão interior, ressaltamos a importância do seu fortalecimento psíquico, que vem através da sua identificação com o Eu verdadeiro. E isto é algo que qualquer pessoa dispõe a seu favor, já que todos possuem dentro de si esta eterna e rica Presença. Caso contrário, as descobertas que fizermos em relação à escuridão podem ser vividas como violência e provocar o desmoronamento do frágil edifício em que se abriga a alma. Numa estrutura psíquica frágil, escavações profundas, ao invés de anunciarem o enriquecimento de nossa personalidade por multifacetar-se com o surgimento de novos aspectos, tornam-se insuportáveis. Portanto, antes de tudo, é preciso dar consistência psíquica a nossa humanidade.

            Deste modo, estaremos preparados para iniciar o trabalho de resgate e cura de nossas partes feridas e traumatizadas. E isto se faz através de um processo de interiorização: assumindo a responsabilidade pelas emoções que sentimos, examinando-as e seguindo-as de volta à sua fonte (ou fontes). Neste processo de interiorização, é importante não procurarmos mais a causa (ou causas) dos nossos problemas no mundo externo, mas, sim, dentro de nós mesmos. Assim, assumindo a responsabilidade pela nossa própria energia, damos um grande passo à frente. Logo que assumimos a responsabilidade por tudo o que existe dentro de nós, podemos nos conscientizar das emoções bloqueadas e transformá-las.

               Enquanto isto não ocorrer, o Ego continuará a oferecer uma solução para lidarmos com a "sombra". Ele sempre promete trazer do mundo de fora as energias de amor, segurança, poder e unidade, que nossa alma tanto almeja. Como nos encontramos num estado de ignorância, sem saber quem realmente somos, sem termos o conhecimento do nosso Eu verdadeiro, colocamos o Ego no comando. Assim, estamos seguidamente procurando validação externa, que se expressa muito bem como uma busca para obter respeito, amor, atenção, reconhecimento, admiração e poder pessoal. Ao longo do tempo, ficamos condicionados e reféns do Ego. E isto traz muitos problemas, como todos sabem e já experimentaram.

             Todos nós, em verdade, recebemos algum tipo de condicionamento dado pelo Ego. Estes condicionamentos muitas vezes podem nos colocar num estado de vítima ou de impotência, levando-nos a querer, de novo e de novo, responsabilizar outros por nossos sentimentos de tristeza ou raiva. Ainda, por exemplo, podemos nos encontrar constantemente atraídos por um novo relacionamento, evitando assim o confronto com o sentimento de medo subjacente da rejeição e solidão. Isso que evitamos olhar torna-se nosso "lado sombrio". Estas emoções são poderosos instrumentos para nosso auto-conhecimento, pois revelam necessidades dentro da alma que não estão sendo atendidas. Quando isto ocorre, significa que há um espaço vazio, semelhante a um buraco negro, um buraco de medo, um lugar coberto por sombras, do qual vagamente somos conscientes.

             Nossa consciência, como já disse, é constantemente desviada do interior para o exterior, de modo que não venhamos a entrar em contato com esta parte do nosso ser onde se encontram sentimentos de separação, abandono e solidão.  Porém isto apenas faz com que a escuridão aumente cada vez mais, já que nos recusamos a olhar para dentro. Estes sentimentos são bem antigos e dizem respeito à origem de nossa separação com Deus, bem como aos traumas que foram sendo acumulados ao longo das inúmeras existências. 

             Essa parte que evitamos, acaba se constituindo naquilo que chamamos de "sombra". E ela pode ser melhor representada como uma criança interior que se perdeu, que se encontra desiludida, desamparada, com medo da vida e solitária. Ela normalmente leva uma vida paralela, sendo abafada, temida, rejeitada e ignorada, por nós mesmos. Então podemos vir a indagar: como isto foi acontecer? A verdade é que vivemos inseridos numa cultura que invalida os sentimentos, onde desde pequenos somos doutrinados a sermos bons, agradáveis, alegres, pois assim recebemos a aprovação, afeto e amor de nossos pais ou responsáveis. Porém, em grande medida, sempre que o contrário acontecia, o afeto nos era negado e o amor retirado.

              Formaram-se, assim, conceitos e crenças sobre o que é certo ou errado em nosso "corpo emocional", que acabam criando um entrave para aceitação completa do que quer que venhamos a descobrir a cerca de nós mesmos. Tornou-se uma tarefa difícil, por exemplo, tentar falar sobre nossa vida interior, já que isto exige que consigamos romper com a máscara adotada ao longo de uma vida inteira, onde o medo, a tristeza, a solidão e a raiva foram sendo isolados, afastados, mantidos à distância, dentro de nós mesmos. Esta atitude, porém, provoca nosso isolamento da vida, caso não estejamos dispostos a encontrar e enfrentar todos estes sentimentos e emoções que encontram-se escondidos na escuridão.

              A boa notícia é que estes sentimentos e emoções contidos são a porta de entrada para o seu Eu verdadeiro, pois ao explorar o que você verdadeiramente sente, em vez daquilo que se supõe que deva sentir, você recupera sua espontaneidade e integridade e abre o portal para a maior sabedoria que você pode abraçar nessa vida: a sabedoria do não-julgamento. Tornando-se consciente do seu próprio lado "escuro", é claro que você pode passar por um período de auto-julgamento e desconsideração por si. Porém, isto faz parte do caminho. Lembre-se que todos temos muita resistência (máscara) em aceitar nossa própria vulnerabilidade. Como já falei acima, isto são crenças e conceitos que se estruturaram em nosso “corpo emocional”. Você sempre receberá ajuda nessa parte da caminhada, de modo a continuar enfrentando o medo interior de não ser bom o suficiente. Quando a máscara quebrar de vez, você deixará de julgar a si mesmo. Todos os motivos para julgamento cairão por terra. O julgamento dará lugar à compreensão e à compaixão. Então você realmente pode se curar, pois começa a entender o que verdadeiramente é o amor. 

              O processo de cura e, por conseguinte, de libertação da alma do domínio exercido pelo ego, permite encontrar nosso Eu verdadeiro, que reside dentro de cada um de nós. E isto é o que todos ansiamos. Quando encontramos a nós mesmos, libertamos aquela criança que quer brincar, se divertir e cantar novamente a canção única e exclusiva da sua alma. A criança que quer explorar a vida e confia que tudo estará sempre bem. Esta criança sabe que a Terra é um lugar seguro para você se expressar. É preciso senti-la e deixá-la se expressar novamente. E isto significa querer dizer "sim" para o fluxo original de espontaneidade dentro de si, para a inspiração exclusiva da sua alma. 

            Lembre-se que o mundo não está completo sem você. O universo está esperando pela Sua contribuição e não pela cópia ou reprodução que você fez da contribuição de alguma outra pessoa. O universo quer encorajá-lo a deixar que sua energia única flua, e isso se refere a ser você mesmo e a expressar a sua individualidade aqui na Terra. Quando você diz "sim" à sua individualidade, qualquer prenúncio de senilidade e morte rapidamente dá lugar a uma substância livre, inventiva, afetiva e criadora em seu interior. Este é o poder de deixar sua criança interior retornar à vida, de fazê-la brilhar com plenitude, felicidade e luz. A única coisa que ela precisa é de um adulto que a leve pela mão, cuide dela com carinho e lhe inspire confiança. E este adulto é você, quando deixa de utilizar de crítica para consigo e passa a observar e realmente quer entender o que se passa em seu interior.



Continua



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Um comentário:

  1. É UMA GRANDE VERDADE TIAGO!
    ENFRENTARMOS NOSSAS PRÓPRIAS SOMBRAS É DIFÍCIL, PORÉM NECESSÁRIO PARA NOSSA TRANSFORMAÇÃO...

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