sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

O som do silêncio


               As duas corujas foram voando para o lado direito da trilha e Ricardo, meio desajeitado, começou a correr atrás delas, mata a dentro. Haveria mais alguém por ali além de mim? - perguntava-se o jovem. Quem mais estaria perdido naqueles vales extensos de vegetação úmida e sinistra? Os gemidos escutados pelas duas corujas pareceram aumentar. Elas fizeram um vôo de pouso e esperaram Ricardo se aproximar.

                      - Lá está ele - disse Lena.

                     - Ricardo - falou Gluer. O bezerro está com poucas forças. Nós iremos nos aproximar dele e quando fizermos um sinal você poderá se aproximar também. Acho que o aprendizado será instrutivo para você.

                      Ambas se acercaram o máximo possível do animal, enquanto Ricardo observava à distância. As neblinas espessas, então, se dissiparam e o jovem conseguiu avistar melhor o bezerro, desfalecido, deitado em meio à mata do campo e próximo a pequenos arbustos. Pela distância era impossível tê-lo escutado - pensava Ricardo. Perguntando a si mesmo se não enlouquecera, naquela altura da caminhada, encontrava a consciência vigilante, esclarecendo-o que continuava a ser ele mesmo, com o sentimento e a cultura colhidos no mundo. Aproximou-se mais. O que eu deveria fazer? – questionava-se. Não seria melhor eu ir em direção àquele animal e tentar ajudar com as minhas forças? O que aquelas duas pobres corujas conseguiriam fazer? Não era eu, igualmente, filho de Deus, capaz de prestar auxílio e socorro? À medida que se aproximava, ouvia o gemido do bezerro mais nitidamente, não como normalmente ocorre ou como os humanos estão acostumados, mas era vivo o “sentimento” de tê-lo escutado. Neste instante Lena voou e veio em sua direção, indagando:
            
        - O que está fazendo? Não se aproxime ainda, você pode estragar tudo.

                 - É que pensei que talvez pudesse ajudar - disse Ricardo.
      
         - É justamente por isso que não queremos que você se aproxime. Para ser realmente útil, você precisa liberar a sua vontade de querer ajudar, entendeu?
          
            Ricardo ficou realmente confuso. O que aquela coruja pedia estava além da sua compreensão.

                   - Estamos aqui em operação delicada. Pretendemos restabelecer a confiança dentro daquela parte do coração deste animal que se encontra só, triste e abandonado. No entanto, isto só é possível se estivermos verdadeiramente presentes, como observadoras, isentas de qualquer julgamento do tipo que considera a dor e a escuridão como algo ruim e negativo.

           - Como assim? Você está dizendo que a dor de se sentir só e abandonado não é ruim? - indagou Ricardo, surpreso.

           
            - O que causa a dor é o julgamento que fazemos da ferida, e não ela em si. Se a vermos negativamente, a nossa energia fará com que ela se endureça ainda mais. O julgamento que fazemos das coisas nasce do nosso próprio medo de não termos poder algum sobre a realidade. Aquele sentimento é uma parte dele. Não é bom nem ruim, apenas é. Agora, se dispusermos nossos ouvidos ao bezerro de uma forma isenta da intenção de querer que ele se sinta diferente, ou seja, aceitando-o como ele é, isto realmente irá auxiliar na cura do seu coração, entendeu? O simples fato de se sentir aceito em nossa companhia, o fará sentir-se seguro novamente.

                       A grande coruja pareceu ficar em silêncio por alguns segundos, como que a recolher precioso conteúdo para esclarecê-lo melhor. Retornando o olhar determinado para ele, falou:


  - Ricardo, a escuridão pode ser uma força criativa, quando começamos a aceitá-la como algo que existe, sem querer lutar contra ela ou expulsá-la. Todos nós escolhemos nossos caminhos de vida. Essencialmente, nunca somos vítimas neste mundo, porque no âmago do nosso ser, nunca somos verdadeiramente impotentes nem arruinados. Nesse âmago, está a centelha de Deus que diz "sim" às experiências pelas quais nós passamos na forma física, e que sabe que somos capazes de aprender com elas, para que nossa consciência se torne ainda mais ampla e compassiva. 

                De um momento para outro, Ricardo se viu como uma criança infantil recebendo lições de alguém muito sábio e maduro. Procurando desabafar, ele falou:  

     - Eu gostaria muito de ter esse entendimento em minha vida. Não de modo teórico, mas prático.

                A coruja, com a convicção que já lhe era característica, tornou a esclarecer:

             -  Se acolhermos nossas vidas com todos os seus altos e baixos, teremos o poder de vivê-la bem. 

        Naquele instante, Ricardo olhou para o céu e fitou por alguns segundos o conjunto de estrelas que formavam a abóboda celeste. A coruja, por sua vez, começou a olhar também. Foi então que ela tornou a dizer:

    - Daqui, nós conseguimos perceber o Cruzeiro do sul, fulgurando como verdadeiro símbolo sublime, desenhado ao fundo azul escuro do firmamento. Aquilo que está distante muitas vezes é facilmente reconhecido. Difícil é reconhecer o brilho que está vivo do lado de dentro de cada um de nós. E eu gostaria de saber se você já descobriu a estrela de luz que você realmente é, a sua verdadeira natureza?

      Aquela pergunta foi-lhe atirada ao rosto, pegando-o desprevenido. Ele simplesmente baixou a cabeça e olhou para o chão, pensativo. A grande coruja então rematou aquele ensinamento:       

    -  A maior satisfação que encontraremos será lembrarmo-nos quem somos enquanto estivermos nestas formas físicas, presos nas exigências e nos desafios da vida na Terra. A recordação de quem somos permite que a centelha de luz divina se conecte totalmente com o nosso eu animal e humano. Entregar-se a essa centelha de luz criativa, ilimitada, em nosso interior, mudará nossas vidas e mudará a vida de outros seres - finalizou ela.
     
        Ricardo, por um momento lembrou-se das palavras ditas por Agostinho, dentro do Taxi: "Você precisa ouvir a verdade sobre si mesmo com a maior frequência possível, porque a sua mente está muito preocupada com auto-imagens falsas. O amor criou você como Ele mesmo"

         Bem naquele momento o bezerro desfalecido começou a se fazer ouvir:
          
           - Eu estou com medo, muito medo – “dizia” o pequeno bezerro, para a surpresa completa de Ricardo.
           
           - Você consegue me ver? – indagou a coruja Gluer.
           
          - Sim, eu estou vendo você – respondeu o Bezerro.

                  - Estamos aqui como amigas para saber como você está se sentindo e o que aconteceu? - voltou a falar Gluer.

                Nesse instante, Ricardo viu Lena se aproximar de seu ouvido e sussurrar:

         - Ele precisará liberar a carga emocional, por isso irá falar um pouco sem ser interrompido. Devemos nos resguardar completamente de querer dar qualquer palpite ou conselho. Apenas escutá-lo é a nossa tarefa.

         - Também – continuou o bezerro, com a nítida expressão de melancolia - pouco importa agora que só restei eu. Levaram todos da minha espécie.

                 - Eu estou escutando você, continue – repetiu novamente Gluer.

                Os três viram, então, o bezerro começar a liberar aos poucos os sentimentos que trazia preso em seu coração. Foi narrando em detalhes o que havia lhe acontecido:

         Eu cresci em meio à natureza com minha mãe e meus irmãos. Todas as manhãs eu corria em direção ao pasto do campo para juntar-me a eles. Ah, minha mãe, minha doce e querida mãe, estava sempre à minha espera. Enlaçava-a, abraçando-a, e sentia seu coração trepidar de júbilo e gratidão. Costumávamos sempre sair todos juntos para passear. Como de costume parávamos sob velhos pessegueiros floridos e sentíamos o suave aroma das florescências. Nossa mãe, então, inebriada de indefinível alegria, contemplava as nuvens que sorriam no céu recamado de luz e falava neste tom:

       Todos nós, meus filhos, somos filhos da Mãe Terrena. E ela nos deu a felicidade e a vida. Por isto, quero amamentar vocês e vê-los crescer. Somos todos terráqueos. Nossa Mãe Terrena nos deu como herança a possibilidade de viver em paz e em abundância, quando nos trouxe à vida.
       
       Eu, porém, não podia conter a pergunta:

                 - Mamãe, a senhora nunca nos deixará, certo?

            Com seus grandes olhos dirigidos aos meus, ela respondia, tendo o cuidado de estender a lição aos meus irmãos:

            - Meus filhos, todos os nossos medos e dúvidas devem ser entregues à nossa Mãe Terrena. Até quando ela permitir nós estaremos juntos. E acima de qualquer coisa, vocês devem viver confiando nela, sabendo que tudo o que nos acontece será para o nosso aprendizado e crescimento.
  
       E assim os dias se passavam. Eu e meus irmãos crescíamos confiando nas forças imponderáveis da Mãe Terrena. Um dia, porém, ao acordar, senti que meu amigo vento soprou de modo frio e diferente. Aquilo não foi um bom sinal para mim. Busquei com os olhos minha irmã floresta, e percebi que também ela encontrava-se retraída. O som do silêncio me dizia que algo havia acontecido durante a noite. Desci, ansioso, em direção aos campos para encontrar com minha mãe e irmãos, quando fui surpreendido pela voz de alguém que me era familiar. Era meu tio. Ele encontrava-se estirado ao chão com o corpo coberto de marcas e cortes. Muito preocupado, perguntei-lhe:

               - Tio, o que aconteceu com o senhor? E onde estão minha mãe e meus irmãos?

                - Filho amado – respondeu ele -, esta noite fomos surpreendidos pelos animais humanos. Eles prenderam todos da nossa espécie, alegando que tinham direitos sobre nossas vidas. Eu reagi, então eles me bateram até eu cair. Pensando que eu estivesse morto, eles me deixaram.

          - E o que eles farão com minha mãe e meus irmãos? – perguntei.

              - Os animais humanos infelizmente irão tirar suas vidas e venderão seus corpos como mercadorias – respondeu ele.
      
     - Mas porque, tio? Nossas vidas foram dadas pela Mãe Terrena. Qual o motivo, qual a justificativa para isto?

             Com dificuldade para falar e o peito respirando a longos haustos, meu tio rematou:

               - Eu entendo sua aflição, meu filho. A Mãe Terrena nos ensina que quando uma espécie se julga no direito de subjugar a outra, é porque ela própria perdeu o sentido da vida. E esta violência que agora estão cometendo conosco, é apenas conseqüência da violência que já está ocorrendo entre os animais da espécie humana. Infelizmente, os animais humanos ainda dormem e não conseguem ver que a Terra é um lugar lindo, um planeta verde e abundante. Mas quando acordarem, esta visão os levará a respeitar a vida e as outras espécies como valiosas em si mesmas. Enquanto isto, para eles, não faz a menor diferença o nosso sofrimento e a nossa dor. No entanto, o algoz sempre é mais necessitado de ajuda do que a vítima. Portanto, antes de pedir que a Mãe Terrena nos ajude, peça ajuda para os animais humanos, que perderam o caminho da fraternidade entre si e entre as espécies.

                 Dito isto, vi meu tio cerrar os olhos para a eternidade. Então, nos meus primeiros dias de solidão, visitava lugares ermos, como a procurar por minha mãe vaca e meus irmãos bezerros, requisitando o socorro do afeto de que me disponibilizavam. Os pessegueiros de nossa predileção pareciam dizer que eles nunca mais voltariam; a noite amiga aconselhava-me a esquecer; o luar, que minha mãe ensinou-me a bem querer, agravava as minhas recordações e amortecia as minhas esperanças. Da peregrinação de cada noite, voltava com lágrimas nos olhos, filhas do desespero do coração. Sentia-me profundamente só. Foi então que saí correndo e subi na colina mais alta. Lá em cima, respirei fundo, recordei todos os familiares de minha espécie e todos os animais humanos que neste momento precisavam mais da nossa ajuda do que de nosso julgamento, e falei com toda minha alma à Mãe Terra:

              - Mãe Terrena

              Ajuda a retornar ao meu coração a paz natural que a ele pertence e afasta de mim qualquer sentimento de revolta contra a atitude dos animais humanos. Dá-me a compreensão necessária e o sentimento de bondade para ver neles irmãos meus que necessitam de ajuda e entendimento. Entendimento de que todos nós, animais humanos e animais não-humanos, somos filhos Teus, e de que temos os mesmos direitos naturais à vida e à liberdade, apesar de sermos de espécies diferentes.

     
          O som do silêncio

        Após aquele relato, Ricardo acabrunhou-se, sem coragem de olhar de frente para as corujas. Elas o respeitaram e evitaram qualquer comentário sobre o que o bezerro havia dito. O diálogo foi terminado com a coruja Gluer perguntando ao bezerro se ele estava triste com tudo aquilo.

                 - Sim - respondeu ele. Mas sinto-me bem melhor agora que pude falar.

                  - Saiba que todos os seus sentimentos são válidos e bem-vindos. Você não está sozinho. Todos nós e a Mãe Terrena estamos com você - disse Gluer.

         Aquelas palavras tiveram o efeito de abrir-lhe um verdadeiro sorriso no rosto pálido. O bezerro então levantou-se e Gluer lhe disse: 

             - Precisamos que você nos acompanhe até um lugar neutro que permita seu reequilíbrio. Há um forte campo eletromagnético aqui. Esta zona é atravessada por várias correntes subterrâneas de água, falhas e outras anomalias telúricas em diferentes níveis do subsolo, o que acaba gerando uma relação muito estreita com os transtornos que você está padecendo. 

                   Ricardo, naquele momento, sem coragem de eximir-se ao silêncio que se estabeleceu naquele ambiente, teve a vontade de que aquela lição ficasse marcada para sempre no recôndito mais profundo de sua alma. Lágrimas afloraram copiosas de seus olhos.
       
       - Por que somos tão ruins e maus com vocês, animais? - falava a esmo.

                 Lena aproximou-se e, sem usar tom de lição ou didatismo, disse a ele:

       - Os animais humanos julgam a escuridão como algo ruim e isto só causa sofrimento.

        - Peraí - respondeu ele - você está dizendo que as pessoas que causaram todo o sofrimento a este bezerro não são más?

                   - De forma alguma. Assim como você, elas fazem isto apenas por que seus corações estão cobertos com um sentimento de autodepreciação e julgamento que é passado de geração em geração. São apenas sofridas e medrosas. E o único antídoto ao medo é o amor. Ele existe dentro de todos nós, mas está encoberto pelo medo e pelo sofrimento, semelhante ao sol quando é encoberto pelas nuvens. Mas a luz continua a brilhar com a mesma intensidade apesar da densidade do nevoeiro que a obscurece. Por isso, não podemos dar poder ao nevoeiro para obscurecer a luz. Ele só terá poder se o dermos. É preciso lembrar constantemente que todo o poder é de Deus, e somente Dele - respondeu Lena. 

                   Neste instante, o silêncio daquela mata pareceu ficar ainda mais forte e intenso. Lena percebeu isto. Baixou a cabeça por um instante e se concentrou. Um minuto de expectativa se passou quando ela voltou a falar:
        
          - Ricardo, quando você chegar à Atalaya, desenvolverá uma percepção que o fará enxergar o profundo significado que há na escuridão, e isto o levará a liberar a oposição à ela.
                                         
          Neste instante Gluer chegou e disse-lhes:

                   - Precisamos ir. O som do silêncio está próximo.

                   -  Vocês não irão me deixar aqui sozinho, não é mesmo? -- interveio Ricardo.

                  As duas corujas se olharam e Gluer falou novamente:

                   - Por favor, venha. Será um prazer tê-lo conosco. O horário das quatro horas se aproxima. Ele é o momento mais escuro e importante da noite, pois antecede o nascer de um novo dia. Isto tem um efeito psicológico profundo sobre todos os animais. Costumamos ouvir o som do silêncio neste período. É um momento de profunda conexão entre a Mãe Terrena e todos os seus filhos.

                   - Mas porque no meio da madrugada? - indagou Ricardo. Que efeito psicológico seria este?

                  - Nossas vidas passam por ciclos de escuridão e luz, - continuou a coruja Gluer . Logo que saímos da escuridão e voltamos para a luz do dia, cada um de nós entende o significado profundo da sua jornada, não apenas com a mente, mas com o coração. A maioria dos seres não sabe como lidar com dores emocionais profundas e com a energia destrutiva que pode resultar delas. E isto é semelhante a como se estivéssemos no meio de uma "noite escura" que traz à tona uma camada muito profunda de medo que deseja ser vista à luz do dia. Por isto, sempre que entramos em profundo contato com o silêncio neste horário, lembramos que depois de toda noite vem um novo dia. O sol sempre vai brilhar de novo. É inevitável. É a vida retomando seu curso natural. Do mesmo modo que nós não temos que impedir que a noite venha, tampouco podemos impedir que o dia chegue. Assim, aprendemos a passar por este movimento natural que nos leva a um esplêndido e lindo amanhecer. Quando os seres humanos entrarem no ritmo da natureza, extrairão bons ensinamentos para viver melhor. 

                     Ricardo não ousou voltar a falar. Os quatro, então, em silêncio, rumaram em direção ao norte. 

Continua

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