sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Onde cresce o perigo, cresce também o que salva



                    Naquele trecho inicial do caminho, a margem do rio estava bem castigada. Ricardo seguia caminhando quando começou a perceber a enorme luz emitida pela lua. Sua paisagem era envolvente e oferecia detalhes encantadores. Seu brilho derramava-se sobre as águas, os pastos, as terras e as plantas daquela região. As próprias estrelas pareciam empalidecer na presença da sua luz brilhante e resplandecente. A trilha levava-o a caminhar por entre plantações de eucaliptos que chegavam junto ao barranco da beirada, sem deixar mata ciliar. 

       
               De um momento para outro, no entanto, o jovem pareceu começar a recear o próprio destino. Nunca antes notara a importância de controlar os próprios sentimentos e pensamentos. Dúvidas insistentes invadiram-lhe a mente. A ignorância frente ao desconhecido provocava-lhe muito medo. Estava sozinho, consigo mesmo. E mesmo assim sua tentação era de fugir. Existiam convicções e velhas feridas de rejeição e solidão que viviam dentro dele, fazendo-o pensar que não teria força para encontrar seu próprio caminho, para experimentar seu destino outra vez. Graças a isto, não lhe era fácil sentir uma conexão segura e amorosa com a Terra.

           
            Enquanto prosseguia no caminho, percebia que muitos barrancos estavam com a terra exposta, assoreando o rio. A região de Atalaya não podia ser avistada. Colinas, rochedos altos e baixos, marcavam o percurso até o local. Foi neste instante que começou a duvidar mais fortemente se teria capacidade de superar os obstáculos e desafios e conseguir chegar ao objetivo. 


            

            De fato, Ricardo ainda não se conhecia suficientemente bem, tampouco imaginava que o verdadeiro poder da energia divina era o de penetrar nos recantos mais escuros e levar amor onde costuma reinar a desesperança. Por isso, baixou a cabeça por um momento e pensou novamente na possibilidade de recuar. Sem saber o que fazer, desesperou-se e finalmente desistiu, dando-se por vencido. Naquele rápido instante, conseguiu abrir-se para algo novo, pois havia liberado todas as suas expectativas e tornado-se verdadeiramente receptivo "ao que é". Então, para sua surpresa, uma voz surgiu e falou-lhe ao íntimo:


        
            - Não recue agora. Não tenha os pés frios. Agora é o momento da crise e você precisa mostrar o seu valor. Precisa provar para si mesmo do que é capaz. Você já venceu outras vezes. Lembre-se que já existiram momentos de superação.


          
           - Mas eu não tenho toda esta força - disse Ricardo.


          
           - Você não se conhece, só isso - disse a voz.


       
          - Quem está falando isto? - perguntou Ricardo.


          
           - Olhe no olho da sua mente - falou a voz.


           Ricardo parou por um momento, respirou fundo, e voltou a atenção para dentro de si mesmo. Nesse instante ele teve a impressão de "enxergar" um animal. Voltou novamente para fora e abriu os olhos. O que é isso? - pensou. 


        
           - Olhe outra vez - continuou a voz. 


         
          Tomou coragem e voltou a olhar para dentro de si. No olho da sua mente apareceu a imagem de um Tigre. Sim, nitidamente era um Tigre. 



        
        - Quem é você? E como pode falar comigo? - perguntou.


       
          - Você pode ouvir o ruído das folhas ao vento? - indagou a voz. 




         - Sim, é claro que posso - respondeu.


      
         - Há alguma necessidade de pensar ou refletir sobre ele? 


    
          - Não, é claro que não.


   
         - Este sou eu, Ricardo. Eu Sou a consciência instintiva dentro de você. Através de mim você simplesmente sabe que é quem é e que está bem como está. 


         
         Ricardo sentia-se muito confuso. Mesmo assim tornou a perguntar:

        

         - Você pode me ajudar?


   
          - É claro que sim - disse a voz. Preciso apenas que você se conecte comigo e não se distraia achando que está sozinho.

 
         - Como eu posso fazer isso?


         - A melhor forma de se conectar comigo é por meio da imagem do animal que lhe ofereci, um Tigre. Aceite ele, Ricardo. Lembre-se que os animais são criaturas muito espontâneas, eles vivem através dos seus instintos, dos seus reflexos naturais. O Tigre irá refletir sua sabedoria interior instintiva. Ele já está lá. Ele está esperando por você. Você não precisa criá-lo, só precisa vê-lo e reconhecê-lo - concluiu a voz.



          - E por que você nunca se apresentou antes para mim? - indagou ele.

  
        - Por que é somente agora que surgiu dentro de você uma certa humildade, no melhor sentido da palavra: uma entrega ao não-saber, sem querer controlar ou "manipular" as coisas, e uma abertura genuína para algo novo, algo que não faz  parte do poder nem do controle, algo diferente. E por causa dessa confiança e abertura em seu coração, você pôde me receber.

 
           Aquilo tudo era muito novo para Ricardo. Mesmo assim, era melhor do que estar sozinho. Continuando, ele perguntou:

  

         - Eu preciso chegar à Praia de Atalaya, mas sinto muito medo de me perder e não conseguir alcançar meu objetivo. Sinto-me triste e sozinho.
              
           
             - A visão de Atalaya que você busca alcançar é realmente verdadeira, mas ainda existem partes de você que precisam de atenção, que requerem sua atenção total para serem curadas.


    
      - O que você quer dizer com isto?


         - Quero dizer que a sua dor está vindo à consciência e você deve trabalhar com ela. Você está no caminho do crescimento interior e da conscientização e é preciso se aperceber desses níveis cada vez mais profundos de dor interna, curando-os. A dor da solidão, a dor de não ser reconhecido e não se sentir amado, todas essas peças estão vindo à tona nesta caminhada.  Portanto, o seu verdadeiro desafio agora não é chegar em Atalaya o mais rápido possível, mas aproveitar a caminhada e conseguir estender a mão para si mesmo, para seus próprios medos e dores mais profundos. Será que conseguirá ter compaixão pelas partes mais sombrias de si mesmo? 

  
           Ricardo ouvia com atenção tudo o que a voz lhe dizia, enquanto seguia caminhando e passava agora por um imponente paredão calcário, com cerca de 200 metros de comprimento e 30 de altura. Percebia que pela escarpa rochosa escorriam grossas raízes de gameleiras. Não se aproximou, pois o local poderia servir de abrigo para muitos animais. Via também que naquele trecho do rio as corredeiras se intensificaram, fazendo-o notar que algo começava a mudar na paisagem. Sem se dar conta, perdera a conexão com o "Tigre" dentro de si, a sua voz interior. A vegetação, então, de um momento para outro passou a exibir aspecto sinistro e angustiado. As árvores também não mais se vestiam de folhagem farta e os galhos, quase secos, davam a idéia de braços erguidos em súplicas dolorosas. Ele continuava caminhando enquanto notou seu coração voltar a ficar inquieto. Estou sendo dominado pelo medo outra vez - pensou.  Ao mesmo tempo, um estado de carência, semelhante a uma necessidade de querer “algo mais”, pareceu dominar-lhe o espírito. Aquele sentimento estranho deixava seu peito oprimido. Era como se, naquele silêncio em meio à mata, começasse a emergir aquela parte de dentro de si mesmo que encontava-se abandonada.  Tentou visualizar o Tigre no olho da sua mente, mas já não conseguia. O medo e o julgamento que fazia da sua própria dor impediam-no de se conectar com o centro divino de seu ser, com a sua alma. E isto lhe dava a sensação de vazio e solidão.

             De repente, viu cortarem os céus aves estranhas, de grande tamanho, de uma espécie que poderá ser situada entre as grandes corujas ou urubus. Crocitavam em surdina, semelhando-se a pequenos monstros alados espiando presas ocultas. Ricardo acovardou-se e começou, de uma hora para outra, a encolher-se de medo e a caminhar em estado de defensiva constante. 
   
   
              Ele guardava a impressão de haver entrado numa região totalmente obscura. Seus pulmões começaram a respirar a longos haustos, enquanto um doloroso desânimo parecia querer-lhe subjugar o espírito. Quis gritar algumas vezes, mas sua voz morria na garganta como se sufocada por mão de ferro. A paisagem, agora, quando não totalmente escura, em meio à mata que se fazia cada vez mais densa naquela altura do trecho, parecia banhada de luz alvacenta, como que amortalhada em neblina espessa, que os raios do luar atingiam de muito longe. Ele não queria entrar mais para dentro. Não queria ter que enfrentar aquela escuridão. Foi então que, repentinamente, sentiu que não estava sozinho. Ao fundo, uma voz estranha se fez presente:
      
     
          - Você já está sob a influência de Atalaya, meu amigo - dizia uma coruja enorme que o observava à distância.

      
       
        - O que é isso? - gritou Ricardo, assustado.

        
       
       - Surpreso, meu jovem? - redarguiu a coruja. Não lhe avisaram que a região de Atalaya era incomum? Aqui, a essência da energia divina costuma descer ao ponto mais baixo, onde a escuridão parece tomar conta de tudo, e faz com que a presença da Luz seja conhecida. Neste lugar, vocês, animais humanos, conseguem recuperar um pouco da sensibilidade esquecida, diminuindo assim a fronteira que os separam de nós, animais não-humanos - falou ela indo voar para mais perto dele.

         
      
          Neste instante, outra grande coruja salta voando, parando ao lado da primeira.

          
         - Onde cresce o perigo, cresce também o que salva. Este é o nosso lema - continuou a outra coruja.

          
         - Quem são vocês? - indagou Ricardo, apavorado. O que querem de mim?


          - Relaxe. Porque tanto medo? Somos amigas. Apenas duas corujas "escutadoras".

           
          - Escutadoras? - questionou.

          
          - Sim, escutadoras. Exatamente isto o que você ouviu. Somos ajudantes treinadas para escutar os que atravessam a obscura "terra de ninguém".

          
           - Terra de ninguém? O que é isto?
           
           - A Terra de ninguém é esta região que você está atravessando. Ela faz com que dores e ilusões de longa data saiam para fora, de modo a serem curadas. Quando você chega nela, começa lentamente o processo de autocura, ou seja, aprende a desenvolver um foco firme e honesto na sua vida interior e uma vontade de encarar todas as emoções que estavam dentro de si. Trata-se de reconhecê-las como suas, de responsabilizar-se por elas e de não se sentir vítima do passado, de outras pessoas ou da sociedade. Mas agora não há tempo para muita conversa. Estamos aqui em tarefa de auxílio a um bezerro. Por sinal, você o viu? - falou a segunda coruja "escutadora".

            Ricardo estava pensativo com tudo o que ouviu. Voltando a si, disse:
            
           - Não, não vi nenhum bezerrro por aqui. Quais são os seus nomes? - indagou ele.


           - Eu me chamo Gluer e a minha amiga aqui se chama Lena.
        
           - Gluer e Lena... Meu nome é Ricardo.


             Foi ele terminar sua fala e ambas viraram, rápidas, seus grandes olhos para o lado esquerdo e disseram uma para a outra:


          - Lena, você ouviu isso? O gemido veio daqui de perto.



      
          - Lateral direita - respondeu Gluer.

      
       
          - Vocês não vão me deixar aqui sozinho, não é mesmo? - questionou Ricardo.


             As duas se entreolharam e Gluer disse:


           - Ok, venha conosco. Prometa apenas que irá falar somente quando lhe pedirmos. Fora isso, deve ficar em silêncio absoluto.


       

         - Combinado - respondeu Ricardo.
                   

Continua



Nenhum comentário:

Postar um comentário