quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Não tema o seu medo


              
             - O desejo de expressar a energia da sua própria alma na Terra sempre chega no momento em que se está pronto para um nível profundo de autocura. Por isso, você precisa fazer o que mais teme - dizia ela. Só assim ficará consciente do que evita que você viva seu sonho.



           Depois de leve pausa, continuou:



           - A maioria de nós teme aprender algo novo.



         - Mas porque temeríamos aprender algo novo? – perguntei.



            - Por que aprender é entrar no desconhecido. E o desconhecido sempre é um fator de medo e onde há medo há emoção. Porém, aqui no mundo ocidental, o foco do aprendizado não leva em conta a emoção, e onde haja emoção há um problema, uma questão. 

     
       - Me dá um exemplo? – pedi.


          - O que geralmente fazemos com o medo, ao longo de nossas vidas? Pense nisso por um minuto e me responda - falou ela.



             Alguns instantes passaram-se e respondi:



             - Tentamos superá-lo, obviamente.



            - Exatamente! Tentamos superá-lo, dominá-lo, invalidá-lo, repeli-lo ou se livrar dele de todo e qualquer jeito. Porém, ele não passa de uma criancinha que costumamos trancar num armário escuro.



           - Como assim? - perguntei, surpreendido. Que eu saiba é preciso superar o medo para alcançarmos nossos objetivos.



          Ficou um silêncio naquele instante. Aqueles conceitos me deixavam confuso. A busca de todas as pessoas sempre foi no sentido de alcançar a luz e eliminar a negatividade e escuridão. Algo novo estava-me sendo apresentado e disso resultava meu desconforto. Continuei questionando: 

       
      - Isso tudo significa transformar minha escuridão em luz? 
  
     - Não complique as coisas - respondeu ela. As coisas são mais simples. Perceba que não estou pedindo que você transforme sua escuridão em luz, ou o mal em bem. Escuridão e luz são opostos naturais; um existe graças ao outro. O verdadeiro propósito da sua jornada não é fazer com que a Luz conquiste a Escuridão, mas ir além destes opostos e criar um novo tipo de consciência, que possa manter a unidade, tanto diante da luz como diante da escuridão. Tem a ver com o amor por si mesmo, e o amor significa aceitar aquelas partes dentro de você que tem lhe causado tanta dor e desespero. Pode ser mais simples que isso? – perguntou ela, sorrindo.


           Grande era o meu assombro, frente àquilo que me era dito. Calei as muitas indagações que escaldavam minha mente, permitindo a ela concluir o tema:



         - Agora, como podemos amar o que pretendemos abandonar, trair ou manter trancado num armário escuro? Preste atenção aos seus sentimentos. Há uma criança batendo na porta de seu coração pedindo que a deixe entrar na luz, no amor.  Quando você aprender a estender a mão com carinho para esta sua faceta, estará sendo capaz de transformar a freqüência do medo em amor, entendeu? - indagou ela.



           Não consegui frear por mais tempo a curiosidade que incendiava todo o meu cérebro.



           - E se não eu não estiver preparado para isso? E se não for ainda capaz de estender a mão com carinho para minha faceta criança?



          - O ego naturalmente continuará a oferecer uma saída, uma solução para você lidar com a sua dor. E a saída que ele oferece sempre é trazer do mundo de fora as energias que esta criança interior está precisando. E as energias que ele mais aprecia é reconhecimento, atenção, amor, prazer e, quase que absolutamente, o apego ao poder pessoal.



      - Como assim apego ao poder pessoal? – perguntei novamente.



   - Simples. Tudo aquilo que percebemos e julgamos como “mau” em nosso mundo sempre é o resultado do apego ao poder pessoal. Em outras palavras, é o que mais ocorre quando dividimos a realidade em termos de bom ou mau, certo ou errado, luz ou escuridão. Esta maneira de perceber a vida é apenas uma meia verdade, pois a verdade sempre vai mais além do modo dualista de ver a realidade. Um dia entenderemos que deixar que as coisas sejam, sem rotulá-las de certas ou erradas, sem empurrá-las para um lado ao invés de para o outro, é o que verdadeiramente requer muita força e poder interior.



       - Você quer dizer que não julgar é o que realmente requer poder interior?



         - Exatamente! - disse ela. É o poder de estar totalmente presente, de enfrentar tudo o que existe e apenas observar. O ego, ao contrário, coloca o julgamento em tudo o que observa. Não há lugar para a simples observação das coisas. Tudo precisa ser corrigido, dividido em categorias, precisa ser rotulado como certo e errado.



             Alguns minutos se passaram entre o silêncio e a apreensão, enquanto ela dirigia o carro. Neste instante, passamos por uma enorme placa na beira da estrada, que dizia: "IN EXPERIMENTUM VERITAS EST" 



          - O que é aquilo? - indaguei.



        - É melhor pegarmos outra estrada - respondeu ela. Aquela placa significa "o experimento revela a verdade". 



Uma estrada esburacada


         Toda aquela conversa me trazia novos pensamentos e ao mesmo tempo uma perturbação. A estrada pela qual seguiamos agora era toda acidentada, repleta de buracos e pedras. Que lugar seria aquele? Ela pareceu perceber a aflição que começava a dominar-me. Não demorou muito e falou:

     
    - Não se preocupe. Peguei esta estrada porque não podemos arriscar. Certamente a polícia está na estrada comum e podem encrencar para cima de você.


          - Com assim? - indaguei.



      - Você acha que eles iriam deixar alguém desconhecido entrar nesta região sem saber quais as suas reais intenções? Estamos quase em pé de guerra aqui.



           - Mas porquê? Quem está em pé de guerra?  




         - Por que estamos revelando coisas que empoderam os seres humanos e os retiram da sua escravidão emocional. Estamos ensinando uma forma completamente nova de ver as coisas que tem consequências profundamente filosóficas sobre nossa realidade, afetando a visão de mundo predominante e, por consequência, o "status quo".



             Neste instante, subimos uma colina íngreme.



               - Eu não entendo ainda que consequências filosóficas isto teria – disse eu.



           Neste instante, ela foi reduzindo a velocidade do automóvel.  Olhando para o horizonte, que agora se apresentava deslumbrante no alto daquela montanha, meus pensamentos pareceram voar em direção ao infinito. Trazendo minha atenção de volta ao ambiente, ela me chamou e entramos para o lado direito da estrada, em direção a um penhasco.



     - Chegamos – disse ela, desligando o som e o motor do carro.



      - O que iremos fazer aqui? – perguntei.



     - Você gostaria de enfrentar seu medo? - questionou-me.


      - Sim, vim aqui pra isto.


            - Então prepare-se!


           


           O Penhasco


     Realmente, eu observava que nos encontrávamos em um ponto muito alto e ao mesmo tempo perigoso. A estrada costeava um despenhadeiro reto, com cerca de 500 metros de queda livre até alcançar a primeira base de rochas, da enorme montanha, que se perdia abaixo. Descemos do carro e eu senti no rosto o vento frio que uivava naquelas paragens. Olhei novamente para dentro do veículo e vi, instantaneamente, refletir uma imagem de São Francisco de Assis, no banco traseiro do veículo.


           - Você é Franciscana? – perguntei.



           - Admiro São Francisco – respondeu ela. Foi alguém que conseguiu enxergar a realidade livre do medo. Por isto, ele podia “ver” o que ninguém via.



         - Sim, é claro que sim. São Francisco foi realmente extraordinário – falei.



         - Então é o momento de pensar nele – continuou ela. Vamos aproveitar e fazer um instante de silêncio, de modo a entrarmos em sintonia com o nosso propósito aqui na Terra.



            Enquanto seguiamos caminhando, ela começou a respirar profundamente. Parecia refletir sozinha. Olhou para o horizonte e falou a longos haustos:



             - Mais doce do que o mais fino néctar de romã adoçada com mel é a fragrância do vento. Mais doce ainda que o aroma dos religiosos que veneram e ensinam a sabedoria, Santo é o Anjo do Ar, que limpa tudo o que é sujo e dá as coisas malcheirosas um suave perfume.



           Eu observava com curiosidade aquele ato espontâneo e singelo. À semelhança de uma poetisa inspirada pelas forças naturais, via ela continuar sua homenagem.



              - Vinde, vinde, ó nuvens! De cima para baixo sobre a terra, com milhares de gotas, através do seu brilho e glória sopram os ventos, empurrando as nuvens para baixo, para as fontes inesgotáveis. Sobem os vapores dos vales das montanhas, perseguidos pelo vento ao longo da trilha da lei, que aumenta o reino da luz. O Pai Celestial fez a terra com o seu poder, criou o mundo com sua sabedoria, e estendeu os céus, o eterno e soberano espaço luminoso, com a sua vontade. Nosso corpo precisa respirar o ar que vem da Terra. E o nosso espírito precisa respirar a sabedoria que vem do Pai Celestial. Somos gratos a Ti, Pai Celestial, por todas as tuas inúmeras dádivas de vida: pelas coisas preciosas do céu, pelo orvalho, pelos frutos preciosos produzidos pelo sol, pelas coisas preciosas produzidas pela lua, pelas grandes coisas das montanhas antigas, pelas coisas preciosas das colinas duradouras, e pelas coisas preciosas da terra – finalizou ela em atitude de reverência.



              Eu percebi, em verdade, que ela parecia estar abençoando aquele local. 

               Terminada sua “oração”, olhou-me nos olhos e disse:



              - Peço que você vá sentar-se na beira do precipício. Você precisa liberar o medo que vem prendendo você.



                 - O quê? - perguntei.



              - Isso mesmo. Você acha que viemos aqui sem um propósito maior? Chegou a sua hora de vencer mais uma etapa do caminho. Confie em mim – dizia ela, num tom de profunda concentração.



              - Devo sentar-me na beira daquele abismo? Você está maluca? Sabe quantos metros de queda livre há até lá embaixo? O menor descuido e minha vida neste corpo acabará por aqui mesmo - disse temeroso.



              - É justamente a experiência do medo que você precisa enfrentar para poder seguir em frente. Não fuja dela. Não há outra forma de alguém desfazer ilusões, a não ser olhando diretamente para elas, sem protegê-las. Não tema, portanto, pois estarás olhando para a fonte do medo e estarás começando a aprender que o medo não é real. Todo poder é de Deus. O que não é de Deus não tem poder para fazer nada. 


      Fiquei pensativo durante alguns instantes. Todo aquele caminho estava levando-me a encarar a mim mesmo, sem máscaras nem fingimentos.   

      Só aprendendo o que é o medo - continuou ela - poderá finalmente aprender a distinguir o possível do impossível e o falso do verdadeiro. Portanto, quero que você vá até lá, sente-se na beirada, olhe para baixo e permita ao medo que reside dentro de você emergir e vir à tona. Simplesmente sinta-o! Permita que ele exista e esteja junto com ele. Não abandone a si mesmo – rematou ela.


             - Mas isto parece loucura. E este precipício? – falei, ainda resistente.



            - Sim, para muitos pode parecer loucura. Muitos há que desejam encontrar o seu poder, a sua própria luz. Porém, raros tem a coragem de sentir a sua dor mais profunda e atravessá-la. E não há como encontrar um sem passar pelo outro. Quanto mais profundamente for em direção à sua própria luz, mais ficará frente a frente com o medo da sua solidão interior. E é somente ao atravessar seu medo, sentindo-o completamente, que você encontrará sua própria luz, sua própria força e poder. Eu sei que isto lhe traz insegurança – continuou ela. Como eu já lhe disse, o desconhecido e a incerteza sempre foram fatores de medo e onde há medo há emoção. O medo marca o limite entre o que nos parece familiar e seguro e o que não nos parece.



          Dirigiu-me então até a ponta do penhasco, lentamente, pé por pé. À medida que caminhava o riso começou a tomar conta de mim. Sempre quando enfrento situações amedrontadoras, começo a gargalhar sem parar. Era simplesmente imenso aquele abismo. Fui me agachando até me sentar no chão. A experiência ali era de “gelar” a espinha completamente. À distância, ela falava:



             - Sinta o seu medo, por favor. Não recuse seus sentimentos mais profundos. Esteja com você, presente, na sua maior dor. Você pode! Você consegue!



                Eu me achava um louco atendendo o pedido dela. No entanto, de certa forma, concordava que ao fazer justamente aquilo que me dava medo,  seria capaz de senti-lo, de trazê-lo à tona e liberá-lo.  Minha barriga, naquele instante, encontrava-se contraída. Eu olhava para baixo e não acreditava. Minha vida estava por um fio. Começei a apavorar-me com a ideia de resvalar e cair. Quem me acharia? É melhor eu sair fora e voltar – pensei.



             - Agora, fique em pé – dizia ela. Fique em pé!



           Meus olhos se fecharam. Ela não é louca - pensei. Eu é que o sou por estar aqui fazendo o que ela me pede. O final daquele precipício era simplesmente absurdo. Repentinamente, porém, como que por encanto, ouvi um “piar” de um passarinho ao lado de minha mão. Abri meus olhos e, incrédulo, havia realmente uma andorinha rola quase encostada ao meu corpo. Eu não podia acreditar no que via. Só poderia ser um sinal, pois as coisas nunca acontecem ao acaso. Ela piou, piou, e foi dando a volta ao meu redor até levantar vôo. Aquele fato me encorajou. Eu não estava sozinho, ali. Um pingo de alegria se fez em minha alma.



              - Levante-se – dizia ela, enfaticamente. Fique em pé. Sinta todo o seu medo, AGORA. Esteja junto à sua dor e não a deixe sozinha. Ela é uma parte de você, a sua sombra, e quer vir à luz para ser liberada.



            Eu fui me levantando aos poucos. Tremia. Realmente meu corpo todo sentia um profundo pânico. Uma espécie de vertigem parecia se apoderar de mim, enquanto me levantava.



        - Olhe, para baixo – continuou. Olhe para baixo.



            Dizendo isto, ela se aproximou e encostou sua mão em meu ombro.



           - Sinta o seu medo, agora. Qual ele é? É o medo de não ter poder nenhum sobre a realidade, de não poder controlá-la com o seu pensamento e a sua vontade? Sinta e diga-me o quão insignificante você é. Vê aquelas andorinhas voando lá embaixo? – perguntou-me, apontando com a mão para baixo.



             - Sim – respondi.



           - Elas são infinitamente superiores a você, neste momento. Elas podem voar e você não pode. Elas são livres e você é um escravo. Escravo do seu próprio medo de encarar a sua sombra e escuridão interior. Diga-me qual é o seu maior medo? Você tem medo de se sentir rejeitado? Você tem medo de não se sentir amado? Qual é o seu medo mais profundo? Deixe-o emergir, sinta ele e o compreenda. Permita que ele exista e o liberte. Nada deixará a sua realidade, a menos que você a ame. Amá-la é igual a “libertá-la”. Todo o ser humano conhece o medo. Cada um de nós conhece a sombra e a solidão de estar envolvido no medo.  Quando o medo se mostra abertamente no rosto de uma criança, a maioria das pessoas reage instantaneamente estendendo as suas mãos. Mas e quando o medo se mostra de forma indireta, através de máscaras de violência e brutalidade? Hein? - indagava ela. Parece imperdoável, não é mesmo? Quanto mais destrutivo e cruel é o comportamento, mais difícil é perceber o medo e a desolação que existem por trás dele. Mesmo assim, você pode ser capaz de percebê-lo. A partir das profundezas da sua própria experiência de medo e desolação, você pode entrar em contato com o profundo medo nas almas dos assassinos, sequestradores e criminosos. Você conseguirá entender as ações deles. E se fizer isso, baseado nas suas próprias experiências íntimas com a escuridão, você pode liberar isso tudo. Você pode deixar que tudo isso exista, sem a necessidade de julgar nada.

         
              Aquelas palavras ditas ao pé de meus ouvidos davam-me a impressão de que nunca mais seriam esquecidas por mim.
         
              - Se você verdadeiramente entender o medo como um poder que existe e com o qual você está totalmente familiarizado através de suas experiências de vida, você pode deixar de julgar - continuava ela. O medo não é nem bom e nem mau. O medo É, e possui um determinado papel a desempenhar. Se você puder simplesmente deixá-lo existir, se não temer seu próprio medo, verá que ele é inofensivo. O medo é inofensivo, está me ouvindo? Ele é inocente como uma criança. Não há nada de errado com o medo. No entanto, se você o coloca sob julgamento, quando se sente desconfortável com ele e o rejeita, então ele se torna essa imensa coisa escura, um demônio que o aterroriza e paralisa, contra a sua vontade. Por isso, não tente expulsá-lo, porque a intenção de eliminar o medo traz um julgamento embutido. A sua parte medrosa ficará mais medrosa ainda se você encetar uma batalha com ela, porque deste modo ela receberá a mensagem de que não é boa, de que é desprezível. Você está me entendendo? Está me entendendo? – perguntava ela, enfaticamente.


               - Sim – respondi.



             - Esse caminho deve ensiná-lo a encarar o que quer que esteja dentro de você, porque somente então você poderá realmente se amar. Essa experiência vai liberar energias criativas poderosas que vão progressivamente trabalhar a seu favor na vida e abrir os canais para o seu “eu” espiritual. Você será capaz de encarar a vida como ela é, sem medo, porque você já não tem medo de si mesmo. Você está sendo preparado para se confrontar com sua dor interna, onde precisará olhá-la com compreensão e aceitação, pois o ponto decisivo ocorre quando você deixa de julgá-la. Só então você passará a viver apoiado no seu coração – finalizou ela.



         Aquele ar limpo e fino, no cimo daquele penhasco, uma vez mais corria por sobre a minha espinha, fazendo vibrar a força dos meus músculos. Um resto de vontade dentro de mim parecia ainda querer controlar a situação, impedindo-me de experimentá-la por inteiro. Eu estava mais uma vez lidando com minha própria resistência a encarar a dor e desolação que existiam em meu interior. Estava resistindo a fitá-las nos olhos e aceitá-las como uma presença viável. Eles eram uma parte minha, a parte que foi ferida, frustrada e mal-orientada, e que agora me chamava, para que eu a reconhecesse e a compreendesse. Era impossível frear o que estava em vias de acontecer. Enquanto eu ainda resistia, era como se os meus sentimentos continuassem a bater e a forçar a porta dentro de mim. Foi então que uma voz interna soou veemente, vindo em meu socorro:



    “Não resista, não resista. Você não está aqui para lutar ou se defender, nem para convencer ninguém. Está aqui para se libertar e se entregar ao nascimento de Você, do seu verdadeiro Eu, que está esperando que isto aconteça”.



             A força daquelas palavras conduziu consigo uma Corrente de Vida que, por sua vez, vibrou dentro do meu ser, com um poder parecido ao de uma corrente impetuosa depois de uma tempestade de primavera. Sentindo o âmago do meu ser começar a pressionar, a forçar-me, empurrando-me para o centro remoinho da grande força, que pretendia fluir, agora, feroz, dentro e fora de mim. Minha percepção foi sendo deslocada, desviada para um ponto neutro em minha consciência, um ponto de neutralidade, a partir do qual eu enxergasse a mim mesmo como um observador, sem a tentativa de mudar nada, onde me permitisse ser apenas eu. Olhei novamente para baixo, para o interior daquele abismo e, à semelhança de um paciente, cujos últimos suspiros de vida dão sinais visíveis de término, “vi” desprenderem-se, um a um, os longos dedos da resistência, que, por fim, largaram a minha fronte. E eu já não precisava mais de rir nem de chorar. Não havia mais nada que me impedisse de sentir os sentimentos pesados de dor, tristeza e medo que fluíam, agora, ferozes, através de meu ser. Eles passavam por mim e eu sentia o que realmente estava acontecendo no meu interior. 


       O antigo estava sendo levado para o túmulo, mas antes que conseguisse fazer isto, era preciso olhá-lo nos olhos e fazer as pazes com ele. Do contrário, ele não descansaria em paz. Em outras palavras, era preciso aceitar a escuridão que existia dentro de mim mesmo e no mundo, antes de poder se elevar sobre ela e ser livre. 


          Sentia como se uma espécie de "nó" estava sendo desfeito dentro de mim. Aos poucos, respirava fundo, lentamente, enquanto um sentimento leveza passou a me envolver. Uma sensação branda percorreu todo o meu espírito. E apesar de todas as minhas “imperfeições” e “falhas”, agora eu conseguia ver mais nitidamente o quanto eu era importante para mim mesmo. Sim, e essa era a única conscientização que contava, de agora em diante. 


Nenhum comentário:

Postar um comentário