domingo, 14 de novembro de 2010

A história de um bezerro dita por ele mesmo


"Anjo da Alegria, desce à terra e derrama beleza e prazer sobre todos os filhos da Mãe Terrena e do Pai Celestial."

          Eu cresci em meio à natureza com minha mãe e meus irmãos. Todas as manhãs, corria em direção ao pasto do campo para juntar-me a eles. Ah, minha mãe, minha doce e querida mãe, estava sempre à minha espera. Enlaçava-a, abraçando-a, e sentia seu coração trepidar de júbilo e gratidão. Costumávamos sempre sair todos juntos para passear. Como de costume parávamos sob velhos pessegueiros floridos e sentíamos o suave aroma das florescências. Nossa mãe, então, inebriada de indefinível alegria, contemplava as nuvens que sorriam no céu recamado de luz e falava neste tom:

           - Todos nós, meus filhos, somos filhos da Mãe Terrena. Ela foi quem nos deu a felicidade e a vida. Por isto, quero amamentar vocês e vê-los crescer. Somos todos terráqueos. Nossa Mãe Terrena nos deu como herança a possibilidade de viver em paz e em abundância, quando nos trouxe à vida.
         
                      Eu, porém, não podia conter a pergunta:
         
                     - Mamãe, a senhora nunca nos deixará, certo?
         
                     Com seus grandes olhos dirigidos aos meus, ela respondia, tendo o cuidado de estender a lição aos meus irmãos:
         
                    - Meus filhos, todos os nossos medos e dúvidas devem ser entregues à nossa Mãe Terrena. Até quando ela permitir nós estaremos juntos. E acima de qualquer coisa, vocês devem viver confiando nela, sabendo que tudo o que nos acontece será para o nosso aprendizado e crescimento.
         
                       E assim os dias se passavam. Eu e meus irmãos crescíamos confiando nas forças imponderáveis da Mãe Terrena. Um dia, porém, ao acordar, senti que meu amigo vento soprou de modo frio e diferente. Aquilo não foi um bom sinal para mim. Busquei com os olhos minha irmã floresta, e percebi que também ela encontrava-se retraída. O som do silêncio me dizia que algo havia acontecido durante a noite. Desci, ansioso, em direção aos campos para encontrar com minha mãe e irmãos, quando fui surpreendido pela voz de alguém que me era familiar. Era meu tio. Ele encontrava-se estirado ao chão com o corpo coberto de marcas e cortes. Muito preocupado, perguntei-lhe:
         
                        - Tio, o que aconteceu com o senhor? E onde estão minha mãe e meus irmãos?
         
                        - Filho amado – respondeu ele -, esta noite fomos surpreendidos pelos animais humanos. Eles prenderam todos da nossa espécie, alegando que tinham direitos sobre nossas vidas. Eu reagi, então eles me bateram até eu cair. Pensando que eu estivesse morto, me deixaram aqui.
                         - E o que eles farão com minha mãe e meus irmãos? – perguntei.
         
                        - Os animais humanos irão tirar suas vidas e venderão seus corpos como mercadorias – respondeu ele.
         
                        - Mas porque, tio? Nossas vidas foram dadas pela Mãe Terrena. Qual o motivo, qual a justificativa para isto? 
             Com dificuldade para falar e o peito respirando a longos haustos, meu tio rematou:

           - Eu entendo sua aflição, meu filho. Faz longo tempo que a Mãe Terrena nos ensina que quando uma espécie se julga no direito de subjugar a outra, é porque ela própria perdeu o sentido da vida. E esta violência que agora estão cometendo conosco, é apenas conseqüência da violência que já está ocorrendo entre os animais da espécie humana. Infelizmente, os animais humanos ainda dormem, meu filho. Mas quando acordarem, irão ver que a Terra é um lugar lindo, um planeta verde e abundante. E esta visão os levará a respeitar a vida e as outras espécies como valiosas em si mesmas. Lembre-se que o algoz sempre é mais necessitado de ajuda do que a vítima. Portanto, antes de pedir que a Mãe Terrena nos ajude, peça ajuda para os animais humanos, que perderam o caminho da fraternidade entre si e entre as espécies.
        
                        Dito isto, vi meu tio cerrar os olhos para a eternidade. Então, nos meus primeiros dias de solidão, visitava lugares ermos, como a procurar por minha mãe vaca e meus irmãos bezerros, requisitando o socorro do afeto de que me disponibilizavam. Os pessegueiros de nossa predileção pareciam dizer que eles nunca mais voltariam; a noite amiga aconselhava-me a esquecer; o luar, que minha mãe ensinou-me a bem querer, agravava as minhas recordações e amortecia as minhas esperanças. Da peregrinação de cada noite, voltava com lágrimas nos olhos, filhas do desespero do coração. Sentia-me profundamente só. Foi então que saí correndo e subi na colina mais alta. Lá em cima, respirei fundo, recordei todos os familiares de minha espécie e todos os animais humanos que neste momento precisavam mais da nossa ajuda do que de nosso julgamento, e falei com toda minha alma à Mãe Terra:

               - Mãe Terrena:

             Ajuda a retornar ao meu coração a paz natural que a ele pertence e afasta de mim qualquer sentimento de revolta contra a atitude dos animais humanos. Dá-me a compreensão necessária e o sentimento de bondade para ver neles irmãos meus que necessitam de ajuda e entendimento. Entendimento de que todos nós, animais humanos e animais não-humanos, somos filhos Teus, e de que temos os mesmos direitos naturais à vida e à liberdade, apesar de sermos de espécies diferentes.



Autor: Tiago Bueno Camargo
tbcsol@gmail.com

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