terça-feira, 9 de novembro de 2010

Naicha e o autoconhecimento

                    Passei a noite na casa do Cedaior. Me sentia mais seguro agora, porém com milhões de coisas fervilhando em minha cabeça. Ele me disse que não demoraria para eu estar chegando em Atalaya, mas que era importante seguir o fluxo dos acontecimentos, o que significava encontrar-me com Naicha naquela manhã. 

              Foi isso o que fiz, indo até a sua casa. Estava curioso para saber que novos conhecimentos se desdobrariam aos meus olhos. 

                     - Naicha! – chamei à porta.  

                    Não tardou para ela abrir e, sorrindo, disse-me:

                       - Que bom vê-lo, Ricardo - falou isso dando-me um beijo no rosto.

                  
     E antes que eu respondesse à gentileza, ela acercou-se de mim e explicou, ao pé de meu ouvido:

                 
 - Percebe que o sol está começando a se esconder atrás de nuvens pesadas? Isso significa que em breves instantes iremos receber chuva. 

           Quando terminou essa observação, os primeiros pingos de água rolaram de cima para baixo, marcando presença no solo. Ela puxou-me para dentro da sua casa e falou:

         - Pegue este guarda-chuva. Precisamos sair. Vamos à escola da região.

          Em seguida, desabou o céu em forte torrente de água.

           Saímos, rápido, em direção à escola comunitária da região. 

           - O que iremos fazer lá? - indaguei curioso. 

            - Por que você quis vir à Atalaya? – retornou ela com outra pergunta, enquanto a chuva caia célere sobre nós.

           - Eu quero descobrir quem eu sou e qual meu propósito neste mundo - respondi. 


              - É para isso que vamos à escola - disse ela.

              - Nunca vi alguém aprender isso numa escola - comentei.

            - É para isso que vamos à escola - repetiu ela novamente. Também recusamos essa separação entre a vida e a ciência. É fato que nossa herança filosófica remonta à René Descartes, quando formulou a grande separação que iria imperar no mundo ocidental: entre a natureza e o homem. Consequência disso que o autoconhecimento ficou para a filosofia e o conhecimento objetivo para a ciência. As Cartas de Dom Pedro II nos instigam a recusar e rever essa disjunção.

         - Então vocês pretendem fazer uma síntese entre filosofia, autoconhecimento e ciência, é isso? - indaguei.

         - Não se trata de fazer uma síntese entre a filosofia e a ciência, porém o desenvolvimento descontrolado do poder de manipulação das ciências coloca questões filosóficas fundamentais e obriga os cientistas ao autoconhecimento.

            - Foi isso que você discutiu com o cara da Intelligentsia científica, não foi?

              - Sim, eu sempre quis uma oportunidade de trazer esse tema à tona, porque eles se recusam a pensar nesta possibilidade. Por isso, também quero levá-lo à escola para que você possa refletir sobre nosso modelo de educação atual. Para se autoconhecer, precisamos saber como fomos educados, de modo a desaprendermos o que nos ensinaram.

              Agora eu estava morrendo de curiosidade. Porém, não houve tempo para mais perguntas. Estávamos já bem próximos à entrada da escola e a chuva já havia suavizado. Porém quando fomos atravessar os portões da instituição, um policial nos abordou, dizendo: 


      - Somente pais ou responsáveis pelas crianças podem entrar aqui.

         - Como assim? - indagou Naicha, surpresa. Eu faço parte do conselho comunitário da escola.

       - Eu apenas cumpro ordens - redarguiu ele.

      - Então deixe-me falar com a diretora. Ela me conhece - falou a Naicha.

       - Não é possível - repetiu ele. A diretora está ocupada em reunião com o Conselho Científico da cidade.

       - Entendi - disse Naicha, contrariada.

     Saímos da entrada do portão da escola e permanecemos ao lado. Naicha então comentou:
     
        - Isso iria acontecer cedo ou tarde. Eles estão procurando deter nossa intervenção em todas as áreas possíveis. Mas não vamos deixar de fazer o que nos propomos. Acompanhe-me - disse ela.

        Aproximamo-nos, então, do lado de fora da escola, de uma mãe com um filho pequeno entre os braços. O garotinho dava visíveis sinais de desgosto. Paramos próximos a eles, de modo a escutar o diálogo que acontecia.

                - Eu quero ficar aqui com você – dizia o menino, tristemente. Eu não quero ir com o papai.

                - Você está triste, meu filho? – perguntava ela.

               - Sim – respondia ele chorando. Eu não quero ir.

                - Eu vejo que você está bem triste e chateado com a possibilidade de ter que passar alguns dias longe de mim, não é mesmo?

             - Sim, eu quero ficar com você e brincar amanhã com o Tom. Lá no papai é chato, não tenho nenhum amigo para brincar.

               - Venha cá, meu filho – dizia isso trazendo a cabeça do menino junto ao peito. Eu estou escutando o seu coração e percebo o quanto ele está triste. Pode chorar. Eu estou ouvindo você e vejo a sua necessidade de ter amigos e companhia. Torço para que você encontre um amiguinho muito especial por lá. O papai do céu com certeza também está ouvindo o seu coração e providenciará um amigo pra você.

               Percebemos o garoto ir se acalmando, semelhante a uma fonte, cujos últimos veios d’água dão sinais claros de término, até secar por completo. Ela o aconchegou mais ainda junto a si e entrou para dentro da escola. Naicha olhou-me de modo questionador e então falou:

                - Percebeu o que aquela mãe acabou de fazer?

               - Ela acalmou o menino, só isso – disse eu.

              - Só isso? – perguntou ela. Você se importa com o autoconhecimento, mas pelo visto desconhece o básico do que seja  preparação emocional. Aquele simples gesto que aquela mãe acabou de fazer servirá de base ao garoto para a superação de grandes crises que o teatro da vida poderá apresentar.

              Virei-me para o lado, pela primeira vez contrariado. O que era aquilo? A Naicha me convidou para encontrá-la para vir me dar lições de educação infantil? Realmente, eu me interesso pelo autoconhecimento, mas não via como aquilo iria me ajudar no meu próprio processo de transformação pessoal.

             Depois de leve pausa, ela continuou:

              - Você está realmente duvidando em como isso pode lhe ajudar no seu processo pessoal, não é mesmo?

              - O que é isso? - perguntei surpreendido. Você lê pensamentos?

                 - Mais do que você imagina - respondeu-me. As Cartas de Dom Pedro II nos dizem que a verdadeira missão da sua consciência é tornar-se os pais que a sua alma perdeu.

                Eu estava realmente surpreso com ela. Olhando-a dentro dos olhos, disse:

                - Agora faço questão que você continue.

                - O que as Cartas querem dizer é que a chave para a verdadeira felicidade em sua vida consiste nisto: que você se transforme nos seus próprios pai e mãe e dê a si mesmo o amor e a compreensão que você perdeu e que está sentindo falta nos outros. É esta a compreensão que o levará ao âmago de quem você é, que é amor e poder divino. Por isso, é importante que entenda como um pai e uma mãe devem se relacionar com seus filhos, a fim de que aplique isso à sua própria criança interior. 


                Depois de pequena pausa, ela continuou:


           - No caso em que vimos agora a pouco, aquela mãe soube reconhecer a tristeza do seu filho, ajudou-o a nomeá-la, deu-lhe uma chance de vivenciar seus sentimentos e ficou com ele enquanto chorava. Não tentou fazê-lo pensar em outra coisa. Nem o repreendeu por estar triste. Mostrou-lhe que respeita seus sentimentos e considera válidos os seus desejos. O garoto teve uma chance de identificar, vivenciar e aceitar a emoção. No final, a mãe mostrou-lhe que era possível deixar para trás aquela tristeza e antecipou uma cena agradável ao menino, alimentando suas esperanças com a fé de que Deus também estava ouvindo suas lamentações e que possivelmente ele encontraria um amiguinho. Isto é preparação emocional, Ricardo. É a capacidade dos pais de fazer com que os seus filhos cresçam sendo capazes de suportar o sofrimento inerente à própria condição humana – rematou ela.

              Minha surpresa era imensa diante da amplitude daqueles conceitos extraídos numa cena tão comum. Percebi que aquele nosso encontro tinha uma finalidade muito superior ao que poderia imaginar.  



       - E o pai dele? – perguntei. O garoto iria ficar o final de semana com o pai. Por que então estava daquele jeito, triste?

                Endereçando curioso olhar às nuvens pesadas de chuva que nos cobriam, Naicha acentuou:

                 - Muitos têm o título de “pais”. Raros exercem a outorga do mesmo. Para ser pai ou mãe é preciso, antes de tudo, uma boa dose de autoconhecimento,  Ricardo. Para se educar bem um filho, o intelecto só não basta, é preciso mexer com a emoção. E, para tanto, ser carinhoso e positivo com os filhos é insuficiente para fazê-los desenvolver a maturidade emocional. É fundamental que os pais sejam capazes de perceber e escutar seus próprios sentimentos.

             - E por que isto ajudaria na preparação emocional dos filhos? – perguntei.

                - Por que somente assim eles conseguirão escutar não só o que é dito com as palavras, mas principalmente os sentimentos por trás das palavras. Os filhos necessitam da intimidade dos pais, e ela não está no intelecto. Talvez você já tenha presenciado adultos que não acham nada demais em rir de uma criança irritada. Muitos pais bem-intencionados ignoram os medos e preocupações dos filhos, como se isso não tivesse importância. “Não há nenhum motivo para você ter medo”, dizem a uma criança de cinco anos que acorda chorando devido a um pesadelo, por exemplo. E essa criança, então, por ser muito sugestiva, começa a aceitar a avaliação que o adulto faz da situação em que ela se encontra, aprendendo, assim, a duvidar do próprio julgamento. 


        - Isto significa “não confiar em si mesma”? – questionei.

          - Exatamente! – respondeu ela. Com os adultos constantemente invalidando seus sentimentos, a criança perde a confiança em si mesma. 
E este é um elemento que, mais tarde, irá manter o adulto fechado em sua solidão: a convicção de que seu eu real, o eu interior, o eu escondido dos demais, é um eu que ninguém poderia amar. É muito fácil identificar a origem desse sentimento, como estamos percebendo. Se os sentimentos espontâneos de uma criança, suas atitudes reais, forem com frequência desaprovados pelos pais e pelos outros, ela acabará por introjetar essa mesma atitude e por sentir que é uma pessoa a quem ninguém poderia amar.

         Eu estava agora admirado com tudo aquilo que estava aprendendo. Fazia sentido para mim. Na verdade, parecia que Naicha estava falando a história de minha vida. Depois de pequena pausa ela continuou:

       - Parece que herdamos uma tradição de fazer pouco dos sentimentos da criança simplesmente porque ela é menor, menos racional, menos experiente e mais fraca que os adultos em volta dela. Levar a sério as emoções da criança exige empatia, capacidade de ouvir e vontade de ver as coisas pela ótica dela. Exige também uma boa dose de generosidade. Portanto, como você mesmo pode ver, é enorme a diferença entre receber um título de pai e realmente exercê-lo – finalizou ela.

                   Aqueles conceitos mexiam comigo devido à profundidade de seu alcance. O assunto era realmente fascinante e a lição era imensa.

                   - Naicha, eu sinto que há tanta coisa para trabalhar dentro de mim sobre isso que refletimos agora - disse a ela. 

                 - O rio, antes de desembocar no grande oceano da vida, recebe muitos afluentes e vai cada vez mais se empoderando. Em nossa caminhada, algo semelhante ocorre. Vamos crescendo em conhecimento rumo à maestria de nós mesmos. Eu o chamei aqui por que sei que você está indo para Atalaya. Aquele lugar possui muita energia. E isto é um tanto desafiador para alguém sem preparo. É melhor você aprofundar a habilidade de escutar seus próprios sentimentos e necessidades, antes de chegar lá. Do contrário, você será jogado contra si próprio e será forçado a fazer à força uma das maiores rupturas da sua vida: sair do papel de vítima; responsabilizar-se pelos próprios sentimentos e emoções; escutar com profundidade a si e aos outros e ser honesto e verdadeiro quando se tratar de expressar sua própria vulnerabilidade. Você se vê pronto pra fazer isto agora? - questionou ela.


           

Autor: Tiago Bueno Camargo

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