quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Metafísica X Ciência


               Eu e Cedaior chegamos no início da noite em uma casa aconchegante e simples. Ele havia me avisado de antemão que estaria havendo uma reunião sobre as Cartas de Dom Pedro II e eu estava realmente muito curioso. Entramos numa sala onde se reunia um pequeno grupo de pessoas. Cumprimentamos a todos e rapidamente sentamo-nos. Começamos, então, a escutar o que ocorria. Uma moça falava sobre alguns dos conceitos contidos nas Cartas. Fiquei atento para saber: 

             - As Cartas nos ensinam coisas revolucionárias para nossa época. E uma delas é que Deus nos ama da forma como somos. Isso mesmo! E isto porque Deus é amor e o amor verdadeiramente não compara e, mais importante, nunca quer forçar-nos a nada e nem modificar-nos de nenhuma forma. Pode parecer estranho dizermos isso, mas aprendemos nas Cartas que o Amor não tem olhos para o que deveria ser. Aliás, a própria natureza do "deveria" está ausente da consciência de Deus. Na visão de Deus e do Amor, as qualidades morais sempre são formas de interpretar ou "dividir" a realidade. Elas são idéias na cabeça dos humanos e, como sabemos, elas podem diferir muito de cabeça para cabeça. 

               Neste instante a moça recolheu o olhar para baixo, respirando fundo. Eu estava atento às suas palavras, mas curioso para saber quem ela era. Então perguntei ao Cedaior qual era o nome dela. Ele respondeu:

              - Naicha é o seu nome.

             Ela então voltou a nos olhar e continuou:

                - A própria necessidade de estabelecer modelos e definir o que é bom é precursora do conflito humano e da guerra. Se pensarmos um pouco a respeito, veremos que não são tanto as idéias que causam a agressão e o conflito, mas a necessidade implícita de controlar e fixar. Se vocês me permitem, gostaria de dar um exemplo: os ideais políticos, pessoais ou espirituais, os padrões de saúde, beleza e higiene, todos estabelecem modelos de como as coisas deveriam ser, de como você deveria comportar-se. Todos eles procuram fixar e definir o que é BOM. Mas Deus, o Amor, não está interessado em definir o Bom. Não está interessado nas idéias, mas na realidade. Deus se volta para o que é real. Ele está interessado em tudo o que existe,  em cada expressão real de vocês, as destrutivas e as construtivas. Ele simplesmente observa; Ele simplesmente está aqui, envolvendo-nos com a Sua Presença, se nós permitirmos isso. Se nós nos abrirmos para a realidade do amor de Deus, nos desapegaremos do julgamento. Aceitaremos quem somos neste momento. 

                   Neste momento, uma garota ergueu o braço e indagou:

                  - Por que que eu não consigo experimentar nada do que as Cartas falam? Tudo é muito bonito, mas eu realmente pareço estar tão distante de tudo isso.

           - Se você me permite - continuou a Naicha - vou dar um exemplo. Nós sabemos que Deus nos perdoa o tempo todo, nos cuida e encoraja, não é mesmo? Mas com frequência, somos nós mesmos que nos tratamos de forma tão rígida e sem amor. Muitas vezes dizemos que deveríamos ter progredido mais, que não estamos certos, que falhamos, seja na área dos relacionamentos, do trabalho ou da espiritualidade. Nos torturamos com as idéias de que não correspondemos com as expectativas de Deus, ou que falhamos, pois sentimos como se não estivéssemos contribuindo com o mundo da forma que deveríamos. Ainda temos a ideia de um Deus punidor. Só que Deus não age dessa forma. Ele só está esperando que escolhamos liberdade e amor, ao invés de ódio a nós mesmos, para que, então, a realidade material e nossos relacionamentos possam refletir de volta aquilo que estamos sentindo por nós mesmos. E este é o verdadeiro caminho e também a nossa missão: voltarmo-nos para dentro de nós mesmos, em todos os níveis, e amar e compreender verdadeiramente a nós mesmos. 

                 Nesse instante, três homens visivelmente alterados entraram pela porta anunciando em alta voz que tinham em mãos um mandado de segurança para o fechamento do local. As pessoas se mexeram em suas poltronas e uma espécie de "burburinho" tomou conta do local. Cedaior, então, olhou-me e avisou:

               - Estes homens estão aqui devido ao conselho científico da cidade.

               - O que isto significa? - indaguei.

               - Significa que o local será fechado. 

                - Como assim? - perguntei apreensivo.

             - A intelligentsia científica está perseguindo locais onde se falem nas Cartas de Dom Pedro II. Já era esperado que viessem aqui.

             Nesse instante, um dos três homens tomou a frente e começou a discursar:

             - Vocês não sabiam que antes de nossa ciência moderna se instituir como a visão predominante no ocidente, a metafísica e a filosofia orientavam o pensamento humano, de modo quase que ditatorial? Muitos homens e mulheres foram perseguidos e levados à fogueira pela Santa Inquisição, devido a não se adequarem à forma e padrões tidos como corretos naquela época. Por isso, os primeiros cientistas foram verdadeiros mártires e tiveram um longo e duro trabalho para romper com a autoridade dos filósofos e teólogos que, baseados única e exclusivamente na autoridade do pensador grego Aristóteles, confinavam o estudo da Natureza a uma sujeição metafísica impermeável às descobertas. Por isso, estamos aqui para dizer-lhes que não permitiremos a ressurreição dessas ideias metafísicas orientadas nestas Cartas. Estas Cartas são de posse do Governo e vocês não tem autorização para as divulgar.

                  Naicha, que comandava aquela reunião, se insurgiu. Levantou a sua voz e, para minha completa surpresa, começou a falar nestes termos:

                - A intelligentsia científica  teme uma ressurreição da metafísica e por isto está procurando controlar a visão do mundo atualmente. Mas se verificarmos o trabalho de Galileu Galilei, por exemplo, que foi um dos mais notáveis cientistas, veremos que ele também fez um enorme esforço para aniquilar as pretensões daqueles que acreditavam poder manipular o mundo segundo suas crenças metafísicas. Ele realmente enfrentou grandes contratempos e quase foi morto, mantendo-se confiante e continuando a acalentar seus sonhos e metas, mesmo quando a luz ao seu redor parecia haver se apagado temporariamente. Por isso, conseguiu mostrar a sua grandeza e enorme força. Muitas vezes foi retratado como herói e mártir da ciência, e até acusado de covarde, porém transformou a história vindo abrir caminho para uma nova forma de sentir e pensar a realidade. No entanto, atualmente, a ciência se distanciou tremendamente dos ideais deste primeiro cientista e também dos demais que lutaram e sofreram para libertar o conhecimento humano da subjugação metafísica. Hoje, infelizmente, a ciência tem servido à indústria química e militar, sendo a principal ferramenta para a construção de armas com o poder de destruição global. E nós estamos aqui justamente para abrir os horizontes novamente. Queremos propor que a ciência se abra e dialogue com o mistério do universo, com aquilo que as Cartas de Dom Pedro II vieram nos mostrar.
            
                 O homem que falava em nome da ciência, talvez por ter sido pego de surpresa diante da resposta bem articulada da Naicha, respondeu defensivamente:            

             - Mas nós não somos responsáveis se as nossas descobertas são utilizadas pela indústria química ou militar. Não temos culpa alguma em relação a isto.
                
                  - É claro que não - rebateu Naicha, falando agora mais alto. A responsabilidade não tem sentido senão com relação a um sujeito que se percebe, reflete sobre si mesmo, discute sobre ele mesmo, contesta sua própria ação. Porém, o conceito de sujeito foi retirado dos princípios que regem o conhecimento científico. Por isso, há sempre cegueira e incapacidade de ver a conexão onde existe conexão. Há a incapacidade de olhar-se a si próprio.
                 
               - Mas o que você quer? - questionou o cientista, nitidamente irritado. Para que a nossa ciência tivesse fecundidade foi preciso separá-la da reflexão filosófica e do julgamento de valor moral, visto que a Igreja inibia e condenava os primeiros cientistas. Ela dizia que a ciência contradizia a Bíblia. Por isso, o ímpeto da nossa ciência moderna foi esclarecer, inovar e destronar a falsa autoridade dos dogmas rígidos e sufocantes da Igreja.
                  
                   Percebi que o debate estava pegando fogo. Naicha respondia à altura, mas mesmo assim, ela pareceu olhar para o Cedaior por um segundo, como que a buscar forças. Ele se mantinha calmo e confiante e isso deu a ela mais coragem. Ela então voltou do silêncio imediatamente, dizendo:
         
           - A realidade de hoje não é diferente. Os métodos científicos também são limitadores, de uma outra forma. Eles estão emperrados em um tipo mesquinho de pensamento racional, analítico e lógico, que não se abre o suficiente para permitir a participação da imaginação e da intuição. Além do mais, se na origem da ciência moderna foi necessário que se operasse uma ruptura decisiva entre a reflexividade filosófica e a objetividade científica, hoje, a ciência tornou-se poderosa e maciça instituição no centro da sociedade, subvencionada, alimentada, controlada pelos poderes econômicos e estatais, que têm interesse em deixar autonomia aos cientistas para que eles façam descobertas que poderão ser utilizadas nos objetivos militares ou industriais. Por isso, chegou a hora de refletirmos sobre essa enormidade de poderes que vieram da ciência e diante dos quais o cientista é impotente.
        
            As pessoas à volta aplaudiram a resposta dada por ela. O cientista ficou enfurecido. Não esperou muito e retornou falando em voz ainda mais alta:
        
            - Mas é graças à ciência que nossa civilização se modernizou. Sem ela não haveria progresso, nem conforto tecnológico.
         
              A Naicha agora respirou fundo, procurando manter-se centrada. Ela precisaria dar uma resposta muito bem articulada. Olhou, então, lentamente para nós, como quem sentia a respiração da própria atmosfera a sua volta e emendou uma resposta dizendo:
         
             - O contrário de uma verdade profunda é outra verdade profunda. Não há um sinal de civilização que não seja também um sinal de barbárie e selvageria; o progresso do conhecimento científico faz progredir também a cegueira e o mistério. Chegou a hora de colocar em evidência a ambivalência profunda do que foi por muito tempo considerado apenas benéfico: o progresso, a ciência, a técnica e a indústria. 
             
              Um minuto de silêncio pairou no ar, enquanto todos olhavam, agora, para o cientista, como que prenunciando a sua derrota. Ele, então, saiu do debate das idéias e apelou para o confronto pessoal:
                
            - Eu sou cientista e você é uma enciclopedista com argumentos filosóficos. Cientistas não discutem com enciclopedistas.
       
            Eu, indignado, olhei para o Cedaior e disse:
       
            - Temos que tomar alguma providência. Ele não pode falar desse jeito com ela.
       
            - Mantenha-se conectado aos sentimentos dele e não aos julgamentos que ele emitir - falou Cedaior. A Naicha está se expressando a partir do coração. E essa energia sempre leva à confusão e ao caos, no ponto de vista daqueles que adoram leis e estruturas e que olham de baixo para uma autoridade firme e resoluta, que lhes diga a verdade. Por isso, é normal que ele esteja sentindo muito medo. Ser julgador lhe proporciona um sentimento de segurança e é apenas isto que ele procura. É importante que ela perceba isto também e não tente se defender.
        
           Não foi isto o que aconteceu, porém. Vimos os olhos dela ficarem vermelhos da cor do sangue. Cedaior percebeu isso e falou:
      
            - Ela perdeu a comunicação emocional com ele. A situação pode tomar outra proporção.
      
            - Como você sabe disso? - indaguei.
      
            - Dá para perceber que ela ficou emocionalmente abalada com o que ele disse. Isso indica que ela ainda possui uma desconsideração por si mesma, que faz com que dê crédito às opiniões negativas dos outros. Só que esta falta de apreço por ela mesma não se resolverá entrando em conflito com ele. 
       
              Antes, porém, que o Cedaior pudesse terminar, vimos ela aumentar sua voz e dizer, veementemente:
       
           - Não posso nem ninguém pode ser enciclopédica. Sinto-me antes uma “enciclopedante”, não no sentido pedante do termo, mas no sentido da auto-educação, ou seja, de uma aprendizagem que coloca o saber em ciclos, tentando articular o que está disjunto e deveria estar junto. Foi-se o tempo em que o conhecimento científico e especializado era considerado o reflexo do real. Por isso, você e todos os "experts da ciência" precisarão viajar através dos territórios desconhecidos do saber, caso não queiram continuar no grande cemitério das idéias mortas, onde a enorme massa do conhecimento quantificável e tecnicamente utilizável não passa de veneno, já que privada da força libertadora da reflexão, que somente a filosofia pode trazer. Esforcei-me por sair dali e sei, hoje em dia, o quanto isto é perigoso, pois em todo o lugar vejo que há sentinelas de plantão, sempre dispostas a atirar em mim.
      
             O cientista esbravejou "contra os céus", enfurecido, enquanto nós começamos a aplaudi-la em coro. Cedaior, então, voltou a falar:
     
             - Eu vou intervir.
      
             Ele se aproximou dela e disse:
     
            - Ataraxia.
    
              Ela não disse uma palavra sequer. Olhou a sua volta, abaixou a cabeça e saiu, acompanhada de perto por ele. Entretanto, antes que pudesse sair totalmente do local, olhou-nos e disse:
      
             - Este é um tempo de mudanças. É o momento de sermos corajosos e assumirmos riscos, de ouvirmos a voz dos nossos corações e agirmos de acordo com elas em todas as áreas das nossas vidas. Por favor, não reprimam o impulso de fazer o que seus corações desejarem. Precisamos achar o que amamos. E isso muitas vezes significa perder-se, não saber para onde ir, chorar, ir contra as regras da lógica e do planejamento. O caminho do coração é muito intuitivo. Onde ele ordenar é lá que devemos estar.
       
          Eu fiquei sem saber o que dizer. Mas me perguntava o que seria "ataraxia"?  Olhei para os lados e o cientista, com um ar de deboche, quis dar sua última palavra dizendo:
   
           - Quem dará melhores respostas que a nossa ciência? Certamente não será ela com sua vã filosofia que se emudece, calada, de maneira arbitrária na esfera das idéias, sem preocupar-se em verificá-las no mundo real - concluiu ele. 

        Nesse instante, Cedaior apareceu e me chamou: 
     
       - Ricardo, venha conosco.
      
        Virei-me e o segui.


 Continua.....


Autor: Tiago Bueno Camargo
tbcsol@gmail.com

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