sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Na prática com a família!


                
      
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Acredito que você que está lendo, assim como eu, desejamos chegar ao âmago de nós mesmos e administrarmos nossas vidas a partir de lá. Cansamos de representar papéis e desejamos ser quem realmente somos. Porém, nesta caminhada para dentro, há momentos em que passamos a nos familiarizar com camadas de emoções profundas, que nunca soubemos que existissem. É ai também que conhecemos o quão importante é aprender a ouvir nossos próprios sentimentos, o que significa cuidar e amar a nós mesmos. Os sentimentos são a maior conquista do ser humano. Aprender a escutá-los é entender melhor a si mesmo.
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Começamos, então, a criar um diálogo educativo com essa condição psicológica, chamada criança interior, que sobrevive, em grande parte, amordaçada e ferida, em nossa intimidade. E isto é o mesmo que aprender a dar a devida importância aos sentimentos que estão por trás dos nossos comportamentos. Neste sentido, é sugestivo estarmos atentos à forma como nos portamos diante de nossas próprias emoções. É útil, por exemplo, substituirmos atitudes de censura, culpa ou crítica e usarmos de empatia e compreensão com nosso universo interior, principalmente no que se refere a lidar com sentimentos de raiva, tristeza e medo. Estas emoções sempre possuem uma mensagem significativa ao nosso autoconhecimento. Se soubermos escutá-las, podemos construir um elo de lealdade e afeição com nosso mundo subjetivo, de modo a encontrarmos mais paz em nossas vidas.
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Agora quero que me acompanhe na história que irei narrar. Acredito que ela poderá nos trazer novos elementos para lidar com situações difíceis e inesperadas.
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Encontrando meu irmão
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Meu irmão aguardava-me junto à parada de ônibus. Desci do transporte e abracei-o. Fomos, então, caminhando em direção ao seu apartamento. O sol havia voltado a brilhar e, apesar disso, eu me encontrava tenso, pois nossos encontros quase sempre acabavam em brigas e discussões. Seguíamos conversando, falando sobre diferentes questões. À medida, porém, que nos aproximamos da residência dele, avistei alguém que, a priori, não reconheci. Seguimos. Mais próximos, agora, notei que, esperando-o encontrava-se uma pessoa que lhe prestava serviços de limpeza. Logo a cumprimentei. Percebi, todavia, que a relação entre os dois ia de mal a pior. Seus olhares denunciavam os sentimentos de conflito que se instaurara na relação.
Fiz, então, algo que o tempo me mostrou o quão prejudicial pode ser: tentei ajudar sem ser solicitado. Não irei relatar todo o acontecimento, pois daria quase uma novela. No entanto, posso resumi-lo dizendo que, o que era a tentativa de um encontro agradável entre nós dois, tornou-se uma difícil decisão para mim. Deveria optar entre voltar ao apartamento dele e escutar todo o ódio e amargura que a minha atitude gerou nele, ou ir para minha casa sem saber quando voltaria a revê-lo.
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Tomei coragem, chamei a companhia de Deus e, decididamente, fui encontrá-lo em seu apartamento. A decisão não foi nada fácil. Muitas dúvidas invadiram minha mente, fazendo-me temer a reação que ele poderia ter comigo, devido ao incidente que causei. No entanto, podia notar ali os resultados que a prática da Comunicação Não-Violenta operava em minha vida. Em meio àquela situação difícil, fui capaz de regular meus próprios estados emocionais, de modo a manter-me calmo.
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No interior do apartamento
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Entrei no apartamento e ao me dirigir até a cozinha pude vê-lo atirando a louça dentro da pia, irritadamente, enquanto procurava lavá-la. Iniciei a conversa tentando me ligar ao sentimento dele:
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- Você está se sentindo com raiva?
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- Sim, estou com muita raiva. Você não tinha nada que se meter naquela situação. Agora quero ver como irei resolver isso. Essa sua mania de ser bonzinho. Ninguém pediu a sua ajuda. Porque tinha que se meter? – dizia ele nitidamente indignado.
Percebi que qualquer justificativa ou pedido de desculpas de minha parte poderia piorar muito aquela tentativa de diálogo. Continuei mantendo-me ligado aos sentimentos dele.
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- Eu gostaria de saber se eu escutei você. Você encontra-se com
muita raiva por que gostaria de ter resolvido a situação do seu jeito e eu acabei me metendo e fazendo algo que não me foi pedido, é isso mesmo?
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- Sim, eu estou com muita raiva de você. Eu não confio mais em você. Não tinha nada que se meter naquela situação. Eu perdi totalmente a confiança em você. Querendo ajudar, acabou piorando tudo. Escute uma coisa, não se meta onde você não é chamado. Não tente salvar nada nem ninguém quando as pessoas não solicitarem, ouviu? Agora ela irá me colocar na justiça, tendo recebido o dinheiro e sem ao menos ter assinado os recibos – esbravejou ele.
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- Então você quer dizer que está com muita raiva, pois necessitava que eu fosse de confiança? – perguntei agora tentando escutar a emoção e também a necessidade que estava ligada a ela.
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- É isso mesmo, você não é de confiança. E tem mais, lembra-se daquela vez na pizzaria? Até hoje eu e o pai estamos com a sua atitude engasgada na garganta. Você acha que nos esquecemos? Ficamos muito magoados com você.
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Nesse instante percebi que emoções mais profundas estavam vindo à tona. Escutar os sentimentos sem julgá-los, permite que partes escondidas possam vir à luz. Trata-se de uma experiência de iluminação, ou seja, significa permitir que todos os aspectos de seu ser sejam levados à luz da sua consciência. Iluminação não significa que você é completamente consciente de tudo que há dentro de você, mas que você está desejando enfrentar cada aspecto conscientemente. Iluminação é igual a amor. Amor significa: aceite você mesmo tal como você é. Continuamos, dessa forma, o diálogo por mais alguns minutos. Eu buscando escutar os sentimentos e necessidades dele. Ele desabafando coisas que há muito estavam guardadas.
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- Eu estou escutando você - prossegui. Você ficou magoado e com raiva de mim por eu ter agido daquela forma na pizzaria.
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- E não é só isso. A mãe também está de saco cheio com as suas atitudes. Ficou indignada e reclamou muito para mim sobre você ter feito seu almoço separado das outras pessoas lá na churrasqueira do condomínio da Gilda. Você não se mistura com as pessoas só porque tem uma alimentação diferente. Acha que é melhor que os outros? É isso? – desabafou ele.
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Para mim, naquele momento, ficou muito difícil receber aquelas palavras. Minha mãe disse aquilo realmente? – questionava-me. Cheguei a pensar em me defender, justificar o motivo das minhas atitudes. No entanto, uma onda de novos pensamentos pareceu quebrar na praia de minha mente, bem quando eu era assaltado por centenas de dúvidas:
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“Quantos golpes você é capaz de receber e continuar seguindo em frente? Quão forte você pode ser atingido e continuar seguindo em frente? Somente quando souber o seu real valor, estará preparado para ser atingido e mesmo assim continuar seguindo em frente. É assim que a vitória é conquistada!”
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Aquela voz interior deu-me novo fôlego. Centrei-me novamente e me mantive com ouvidos bem alertas, continuando a escutá-lo.
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- Você vive esse seu mundinho sem dar a menor atenção para nós – dizia me olhando dentro dos olhos. Você sequer imagina o que eu ando passando. Agora com a saída do pai daqui de casa eu tenho me sentido completamente sozinho, sem família. Na noite passada, acordei desesperado com o sonho que tive. Por acaso você tem pesadelos de acordar em meio à escuridão da noite e não conseguir mais voltar a dormir? Tem? Eu sonhei com você, está me escutando? Eu sonhei com você – repetiu ele, em tom mais alto. Sonhei que você havia morrido e que nunca mais voltaríamos a nos ver. E se você ainda não sabe, és o meu irmão, uma das pessoas que eu mais amo nesta vida.
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Um raio que me atingisse a cabeça não causaria maior impacto. Aquelas palavras acertaram-me em cheio, fazendo-me ir abraçá-lo, talvez como se nunca houvera feito antes. Meu retraído coração, então, se encheu novamente como se fora um poderoso rio que houvera sido intumescido pelas forças das chuvas, numa tempestade de primavera. Era impossível frear o que estava em vias de acontecer. Lágrimas pesadas, numa mistura de alívio e dor, descerraram os portões enferrujados e envelhecidos do meu orgulho humano, vindo aguar os campos do meu sentimento, num pranto ininterrupto. Em momento algum eu esperava que aquilo fosse dito por ele. Chorando, vi passar em minha tela mental, em questão de segundos, importantes cenas que vivemos juntos. Pela primeira vez, talvez, falei o quanto eu também o amava. Ficamos abraçados ali por algum tempo, sem que nenhuma outra palavra fosse dita. Nada mais fazia sentido senão experimentar o significado daquela ocasião: uma verdadeira reconciliação acontecia. Era como se o Céu e a Terra nos convidassem a experimentar a dança harmoniosa das grandes esferas, após vitoriosa conquista sobre os pesados fardos que nos prendiam.
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Nunca havia experimentado em toda a minha vida o poder que há em aprender a escutar sentimentos e não reagir, apressadamente. De uma hora para outra, tudo havia mudado. Vimo-nos, agora, como dois velhos e bons amigos, cujos sentimentos de afeto um pelo outro, por mais que se tente, nunca poderão ser expressos num pedaço de papel. Se for verdade, porém, que o Livro da Eternidade registra tudo o que fazemos enquanto vivemos aqui na Terra, peço que esse acontecimento fique registrado sob o título “Escute o pedido de socorro que há por detrás da raiva”, de modo que, ao consultá-lo, nossa consciência desperte a atenção para a necessidade de ouvirmos os sentimentos uns dos outros, antes de qualquer tomada de atitude.

Autor: Tiago Bueno


Continua




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Um comentário:

  1. Tiago,
    E adoro ler seus posts. Me passam uma energia muito boa e me ajudam a encarar a vida com mais otimismo!
    Que você siga iluminando mais pessoas!
    Abs
    Tassia

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