segunda-feira, 25 de outubro de 2010

A invalidação dos sentimentos






      Após aquela experiência na entrada da escola, foi impossível não dedicar minha atenção às crianças e pais que passavam por nós. Percebia que a informação é fundamental para que consigamos ampliar nossa visão de mundo. Foi então que notei novas oportunidades de aprendizado em potencial que se apresentavam. Estavam parados à nossa esquerda outro garotinho com sua mãe. Pedi à Naicha para que prestássemos atenção ao diálogo que ocorria entre os dois, de modo a aumentarmos nossos conhecimentos e reflexões. Assim, começamos a ouvir com atenção o que se estabelecia entre ambos.

     - De novo não! – dizia ela. Olha, Joaquim, você já é grande, não é mais um bebê. Não se altere toda vez que lhe derem um “gelo”. Deixe pra lá. Procure outro amigo. Vá ler um livro. 

       - Mas eu fiquei triste e irritado, mãe. Por que me cortaram do futebol? – retrucou o garoto.

      A mãe do menino, impaciente, considerou: 

     - É, mas já é hora de você começar a encarar essas situações de modo diferente. As pessoas nem sempre vão lhe agradar. Quem sabe você começa a ficar feliz e agradecer pelo que tem, pois muita criança por aí gostaria de ter a metade das coisas que você possui – finalizou ela.

    Nós acompanhávamos o diálogo. Indiscutivelmente, aquele instante não comportava minha apressada conclusão. Esperei pela Naicha e ela não demorou em falar-me ao pé do ouvido:

        - Note que esta mãe, por maior boa vontade que tenha, acabou por derrubar a auto-estima do seu filho. Dizer a uma criança como ela deve se sentir só a faz desconfiar do que sente, o que a deixa insegura e a faz perder a auto-estima. Isto pode parecer simples e até não ser nada demais para uma mente adulta. No entanto, para uma criança é a devastação total. Estas pequenas invalidações do que ela sente constroem e solidificam a crença de que ela está errada. O clima constante de não-aceitação da sua individualidade afeta a criança como um choque pequeno mas constante, que frequentemente deixa uma marca mais forte que uma única experiência chocante e traumática. Assim, ela cresce e se torna num adulto, em termos da sua fisicalidade. Cresce também intelectualmente, mas lá dentro, como pano de fundo em seu inconsciente, mora aquela pequena criança que, por vezes inúmeras, recebeu a invalidação dos seus sentimentos. O nome dessa criança é medo. Medo de estar errada por sentir o que sente e, por conseguinte, de expressar quem realmente é, pois vive na negação de si mesma. Isto faz com que os indivíduos cresçam sentindo-se isolados da vida, pois estes sentimentos e emoções, ao invés de desaparecerem, acabam por ficar soterrados no inconsciente, causando angústia e sofrimento. É isto o que aprendemos desde cedo, a isolar o que se passa dentro de nós. 

      - Concordo – exclamei. É quase incrível nossa ignorância em relação ao processo de desenvolvimento emocional.

       - Sim – tornou ela -, isto surpreende bastante. O que falta e é vital para se conseguir tocar uma criança com sucesso, é uma conexão interna com aquilo que a criança está experienciando: os sentimentos e emoções que provocam o comportamento exterior. Por isso, se dissermos à criança que ela tem o direito de sentir, mas que há formas mais adequadas de expressar o que sente, ela fica com o caráter e a auto-estima intactos. E fica sabendo, ainda, que tem um adulto compreensivo do seu lado para ajudá-la a deixar de se sentir arrasada e encontrar uma solução.

       As questões referentes à aprendizagem emocional abriam-se diante dos meus olhos curiosos. Imprimindo grave entono à voz, Naicha acrescentou:

      - Note que os bebês e crianças são como esponjas. Eles absorvem praticamente tudo o que vêem e ouvem dos adultos. E o pior é que acabam generalizando aqueles conceitos apreendidos para quase todas as áreas de suas vidas. 


                   Com esse olhar, procurávamos, agora, observar outra cena que se desdobrava à nossa frente. Duas crianças e um pai. Uma menina por volta dos seis anos de idade e sua irmã com, acredito, seus quatro anos de idade. A maior implicava com a menor, inventando motivos para se ofender. Dizia ela: “A Paula está olhando de novo para mim!”. Em cada interação, a maior colocava a menor como vilã, embora aparentemente ela não fizesse nada de errado. Observávamos aquela cena, curiosos. Vimos, então, o pai intervir na situação dizendo:

        - Que coisa mais feia, nem parece que é a irmã mais velha. Sua irmã menor está tão comportada e você fica aí causando má impressão. O que as pessoas irão pensar de você? Talvez pensem que eu não lhe dou educação – disse o pai.

           Bastaram aquelas poucas palavras para que a menina entrasse em total silêncio e quase desespero. Vimos ela se emburrar e encher os olhos de lágrimas, que não chegaram a cair.

       Boquiaberto com o que me era dado perceber, enderecei novo olhar interrogativo à Naicha que, após haver  acompanhado a cena, informou:

         - A mágoa está sendo internalizada. Caso ela não tenha outro adulto que refaça sua auto-estima, aquelas emoções represadas darão duro trabalho a este pai.

       Ergui os olhos repletos de indagações. Naicha então murmurou:

          - Vemos ali uma menina que não se sente boa o suficiente e muito menos amada por quem ela deposita toda a sua segurança e afeto. Ainda, aquele pai, como frequentemente acontece, tratou o problema somente na periferia, em lugar de fazê-lo no centro. O adequado seria que ele enfrentasse o estado de carência da filha, procurando ouvir os sentimentos de solidão e separação que há no fundo do espírito dela; porém, adotou a estratégia de resolver o problema voltando a consciência da menina para o exterior. Esta conduta se agravou, ao comparar ela com a irmã menor e ao dar enfoque e importância ao que as pessoas pensariam a respeito dela. Dessa forma, a ensinou, distorcidamente, que o desejo original por amor e unidade que ela nutre, deveria ser buscado no mundo de fora. Essa criança, provavelmente, crescerá constantemente procurando validação externa, a qual lhe proverá, temporiariamente, um pouco de segurança. No entanto, Ricardo, isto significa confiar no julgamento de outras pessoas e viver muito preocupado com o que os outros pensam e dizem a seu respeito. A auto-estima dela poderá depender quase que exclusivamente disso.

         - E por acaso a auto-estima dela aumentará se ela conseguir o respeito e consideração das pessoas e do mundo? - arrisquei.

       - Na realidade a auto-estima dela abaixará cada vez mais, já que entregará seu poder a forças externas, que a julgarão por seus desempenhos externos e não por seu verdadeiro ser. Enquanto ela fizer isso, o sentimento profundamente arraigado de abandono e solidão não será aliviado, apenas crescerá.

        Uma leve pausa aconteceu em nosso diálogo. Notando a oportunidade para aprofundamento do tema, Naicha continuou:

        - Para que ela conquiste sua auto-estima, terá que aprender a se libertar dos padrões e amar-se do jeito que é. E amar-se se resume na forma como tratamos a nós próprios. A relação que estabelecemos com nosso mundo íntimo. Sobretudo, o respeito que exercemos àquilo que sentimos. A auto-estima surge quando temos uma atitude de aceitação com nossos sentimentos. 

   - Eu fiquei curioso agora e gostaria de saber como podemos diferenciar a aceitação da passividade? – inquiri.

            - A energia da aceitação, ao invés de ser passiva como talvez possamos pensar, é profundamente ativa e curadora, pois ao aceitar a si mesmo como você é, torna-se possível compreender as origens e causas que o tornaram deste modo. É como se você estabelecesse um contato mais íntimo consigo mesmo, conseguindo identificar, por exemplo, essa parte de dentro de si que tem medo de se sentir sozinha, abandonada e não amada. Quando conseguimos ver que as nossas atitudes eram regidas por esse medo, amadurecemos, ao invés de nos julgarmos. Acontece algo mais ou menos semelhante a isso: “Nossa, eu não sabia que estava com tanto medo. Deixe-me ficar ao meu lado e ser minha melhor companhia.” Essa é a energia da aceitação, capaz de tornar transparente e clara, aos nossos olhos, as causas e motivos da maioria de nossas atitudes e reações. O contrário é a energia do julgamento, da crítica e da culpa. Ela nos impede de enxergar a raiz da dor que estamos sentindo. Vemos apenas alguém depressivo, apegado, orgulhoso, dependente, arrogante, triste, fracassado, egoísta, etc. Portanto, o remédio está em aprender a amar a vida que temos, o que somos, o que detemos e viver um dia após o outro. Não há como criar uma realidade melhor a menos que aprendamos a nos aceitar como somos, pois se há partes dentro de nós que ainda sofrem a negação, elas atrairão pessoas e situações que reflitam a forma como tratamos a nós mesmos. O contrário também é verdadeiro. Se você se amar e aceitar-se pelo que é, irá atrair circunstâncias e pessoas que refletirão o seu amor próprio.

         Eu estava pasmo com tudo o que acabara de ouvir. Naicha era verdadeiramente a "Mulher Selvagem" que Cedaior falava. Sentindo a profunda atenção com que eu lhe seguia a palavra, ela abaixou a cabeça por alguns instantes e, num tom de desabafo, completou o ensinamento:

          - É, Ricardo – dizia ela - infelizmente a invalidação dos sentimentos tornou-se um problema cultural crônico. Ela está tão dissolvida e mascarada em nossa cultura, que atua como um verdadeiro “parasita”, a brotar avassaladoramente dentro do corpo do hospedeiro. A disseminação dos seus “fungos”, todavia, produz uma confusão mental e peso social de dimensão inimaginável ao homem comum. Alguém que na fase adulta carrega dentro de si sentimentos represados e suprimidos por não terem sido aceitos e expressados corretamente quando criança costuma, em boa medida, fugir para o paraíso ilusório das drogas, da dependência alcoólica, do tabaco ou dos remédios em geral, bem como do sexo desequilibrado. São todas formas de desviar a atenção da dor mais profunda de ter seus sentimentos negados. Por mais ocultos que eles estejam, criarão condições de vida que nos farão lamentar. Por isto, é fundamental a ajuda e atenção dos pais e responsáveis para transformar esse quadro.

           A exposição não podia ser mais clara. Eu observei, assombrado:

         - Quem diria que coisas tão simples e ao mesmo tempo tão profundas poderiam modificar drasticamente o quadro social da cultura humana?

           - Sim – concordou ela -, as crianças realmente não sabem como expressar suas emoções. Por isto, elas buscam apresentá-las aos adultos por meio de atitudes e comportamentos que nem sempre são fáceis de decodificar, o que acaba sendo intrigante. No entanto, se ouvirmos com atenção e com o coração aberto as mensagens que a criança inconscientemente oculta, é possível decodificá-las. Por isso, a base da verdadeira ajuda para um pai ou educador é a disposição para se abrir para o modo da criança experienciar a vida e se sintonizar com aquilo que ela lhe comunica verbal ou não verbalmente. É menos relevante ter conhecimentos ou habilidades específicas. Isto pode até atrapalhar.

          - Diga-me Naicha, que mensagem, por exemplo, aquela criança estaria tentando dizer ao seu pai? – perguntei.

           - Talvez aquela menina estivesse querendo dizer: “Pai, eu estou com medo de que o senhor não me ame o suficiente. Tenho medo que você e mamãe gostem mais de minha irmã do que de mim. Eu preciso saber se vocês me amam tanto quanto ela. Eu preciso confiar no senhor e na mamãe, ter a certeza que vocês não irão me abandonar, porque vocês são o centro da minha existência.” O Pai não precisaria provar seu amor por ela. Precisaria apenas ouvir o que os sentimentos daquela jovem estavam querendo expressar por detrás daquelas atitudes. Ele poderia ter dito, por exemplo: “Sim, minha filha, o papai quer escutar o que o seu coração está querendo me falar. Ele está triste, irritado, com medo, desconfiado? Ele necessita de amor, de atenção, de saber que estamos aqui juntos a você para lhe dar todo o amor e segurança que você necessita, não é mesmo? Você pode falar e expressar suas necessidades para o papai”. Talvez isso não resolvesse de imediato o problema. As circunstâncias, todavia, não são tão importantes quanto os sentimentos despertados.

           Aproveitando o ligeiro silêncio que se fizera espontâneo, preparava-me para fazer nova pergunta, quando ela resolveu aprofundar a explicação:

          - É importante que os pais, educadores e responsáveis aprendam a perceber a emoção da criança e a reconhecer nela uma oportunidade de intimidade ou aprendizado. Devem também ouvir com empatia, legitimando os sentimentos da criança. Somente assim eles podem ajudá-la a encontrar as palavras para identificar a emoção que ela está sentindo. O que acontece, contudo, é que tentamos propor soluções aos problemas da criança, antes de mostrar empatia por ela. E isto é o mesmo que construir a estrutura de uma casa antes da sua fundação.

         - E qual seria a fundação para aquela menina que brigava com a sua irmã, por exemplo? – indaguei ligeiro.

         - A fundação, para aquela menina, é saber que ali se encontrava um adulto em quem ela poderia confiar, que acolheria e estaria pronto para ouvir seus sentimentos antes de rejeitar seu comportamento. A estrutura viria em seguida, após o pai dar àquela criança a certeza de que ele ouvia a dor daquele pequeno coração que necessitava saber que era amado, para se sentir seguro. Após a criança ter essa garantia do seu pai, ela estaria aberta para receber o ensinamento e direção que a ajudará a mudar o seu comportamento.

          Calei-me, atendido em minha fome de elucidação. Colhera ali, na conversação de alguns minutos, precioso material de observação para longo tempo. Nesse momento, voltei o olhar para as árvores que cercavam a escola, profundamente tocado em minhas fibras mais íntimas. Aproveitando a oportunidade, expus meu interesse em querer aprender mais sobre o assunto. De maneira franca e direta, Naicha respondeu-me:

               - Ricardo, sei que deseja ter a maior quantidade de informações possível, mas de agora em diante você precisará buscá-las dentro de si. Sua alma fala com você através de suas emoções e sentimentos. Prepare-se, sua caminhada rumo à Atalaya deve prosseguir. 


Continua

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Um comentário:

  1. Cara, maravilhoso texto. Vc mesmo desenvolveu ou a relata como participante da história? Também procuro me especializar em desenvolvimento emocional e a evolução de consciência, e gostaria muito de trocar informações. Pela data da última publicação este blog quase não está mais ativo, e não o encontrei no facebook. Deixo meu e-mail: arielgriff@hotmail.com

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